26 Mai 2022, 00:00 Motivação, segurança, determinação são sem dúvida os adjetivos que caracterizam as mulheres na política e não é por caso que estes três adjetivos foram o mote da 7ª Academia de formação política para as mulheres do PSD que teve lugar em Vila Nova de Gaia entre 29 de abril e 1 de maio.
“As mulheres têm voz, usem-na”, de Lucinda Dâmaso, e “fazer acontecer”, de António Saraiva, foram duas frases que ouvi na formação e que ficaram retidas no meu pensamento – e que me levaram a refletir e a esmiuçar sobre esta temática – reportando-me às minhas próprias vivências políticas e às dificuldades sentidas. Todas temos a perceção que houve, nos últimos anos, um crescimento do número de mulheres no espaço político e que esse crescimento se deve em grande parte ao aparecimento da Lei da Paridade.
Cinquenta e dois por cento da população portuguesa são mulheres, mas não são os números, nem as quotas que quero explorar neste artigo de opinião, mas sim, o esforço que algumas de nós fazem para conquistarem o espaço político.
O mundo mudou, mas será que mudou mesmo?
Os homens continuam a dominá-lo e as mulheres continuam a lutar para legitimar o seu lugar. O “fazer acontecer” depende de um esforço quase sobre-humano para a grande maioria das mulheres. O equilíbrio entre maternidade, profissão e a política é talvez a maior prova de superação de muitas das mulheres que sonham ocupar um lugar de relevo na política pelo mérito, e não pelo simples facto de serem mulheres ou para preencherem um critério legal.
“As mulheres têm voz, usem-na ”um apelo à conquista, à não desistência e ao encorajamento de continuar com a “tripla jornada”, ou seja, vida familiar, profissional e política
Deixar para depois a “tripla jornada” ou continuar com a “dupla jornada”?
À semelhança de muitas mulheres, eu deixei para depois! Para depois da maternidade, para depois da conquista de uma panóplia de qualificações e da segurança profissional. Mas será que deixar para depois é arriscado? Porque o mundo muda, a sociedade muda, as oportunidades “voam” e podemos nunca atingir o cargo tão desejado.
Ter ou não ter um cargo deixou de ser relevante, como mulher, o deixar ou não para depois deve ser entendido com normalidade e respeito pelas escolhas e os cargos devem ser atribuídos pelo mérito e não pelo equilíbrio da balança do género.
Em conversa com algumas mulheres que durante a juventude ocuparam o espaço político nacional e que aos poucos o foram abandonando, devido às exigências da maternidade, da profissão e, sobretudo, pela insegurança do mundo dominado pelos homens, noto que apesar do esforço inglório não deixa de transparecer o testemunho dessa motivação feminina escondida, uma determinação adormecida e uma promessa que haverá um regresso e esse será triunfante. É nestas mulheres que me revejo e quero descrever.
Durante a minha juventude, tal como muitas jovens, já evidenciava o gosto pela política, pela vontade de estar no palco da tomada de decisões. Fiz parte de associações de estudantes, quer no ensino secundário, quer no ensino superior. Já aqui havia um escrutínio demasiado exigente para as mulheres. Os cargos de presidente, vice-presidente e até mesmo de tesoureiro eram exclusividade dos homens, como se de uma “cartilha” se tratasse para o salto tão desejado: o espaço político.
A motivação é sem dúvida a principal “droga” que as mulheres possuem para quebrar essa “cartilha”. Permanecer requer muita resiliência. A presença assídua em plenários, reuniões, comemorações, campanhas eleitorais, congressos, etc., são sem dúvida maratonas de entrega contra o tempo e são provas de uma forte determinação para a grande maioria das mulheres. Fazerem-se ouvir é talvez das tarefas mais difíceis. Até porque continuam a ser julgadas, a ser sujeitas a um escrutínio muito mais exigente que os homens, continuam a ter que provar que são competentes e que carregamos uma panóplia de qualificações.
Fazerem-se ouvir é talvez das tarefas mais difíceis. Até porque continuam a ser julgadas, a ser sujeitas a um escrutínio muito mais exigente que os homens, continuam a ter que provar que são competentes e que carregamos uma panóplia de qualificações
Eu, deixei para depois essa maratona, mas será que deixar para depois é arriscado? Porque o mundo muda, a sociedade muda, as oportunidades “voam” e podemos nunca chegar lá. Mas, há uma coisa que nunca muda: o ser mulher e a vontade de “fazer acontecer”.
Abraçar a maternidade e a valorização profissional trouxeram-me sabedoria do mundo real. Hoje, regresso ao espaço político com trabalho feito, qualificações, experiências de vida inesquecíveis, dificuldades superadas e uma maior abertura para entender o verdadeiro sentido da política: servir e não me servir.
Ter ou não ter um cargo deixou de ser relevante, o deixar ou não para depois deve ser entendido com normalidades e respeito pelas escolhas e os cargos devem ser atribuídos pelo mérito e não pelo equilíbrio da balança do género…
“ As mulheres têm voz, usem-na”
“As mulheres têm voz, usem-na ”um apelo à conquista, à não desistência e ao encorajamento de continuar com a “tripla jornada”, ou seja, vida familiar, profissional e política.
Tenho uma vida profissional consolidada e uma família que me apoia… No entanto, recordo as palavras da minha filha quando era mais nova:
– “Mãe porque não és uma mãe igual às outras?” Perguntava ela.
– Como assim, filha? Retorqui com algum espanto.
– “As outras mães passam a ferro, fazem bolos deliciosos, tu só sabes estudar!” Respondeu-me…
Fiquei sem chão. Senti-me a pior mãe do mundo e como poderia eu explicar, a uma criança de 6 anos, o porquê de ser “diferente” da maioria das outras mães. Note-se que nesta fase da minha vida as prioridades estavam centradas na educação das minhas filhas e na área profissional e mesmo assim era impossível não falhar.
Ainda, hoje, em muitas das reuniões sou a única mulher e sou muitas vezes interpolada com a pergunta de como consigo estar tão presente, com clareza respondo: “ deixei para depois…”
Não é por acaso que assistimos ao abandono de muitas das promessas femininas na área da política após o término dos estudos e a um retorno depois dos 50 anos, quase me atrevo a dizer que as que permanecem são as que fazem da política a sua profissão, mas, também não é menos verdade, que assistimos a uma falta de comparência destas mulheres, que ocupam lugares de relevo, durante o seu mandato, a plenários e a reuniões com os militantes de base.
Ainda, hoje, em muitas das reuniões sou a única mulher e sou muitas vezes interpolada com a pergunta de como consigo estar tão presente, com clareza respondo: “ deixei para depois…”
Hoje, com 19 anos a minha filha tem orgulho da mãe e diz: “VAI …”
Será que o mundo mudou para as mulheres? Não o suficiente, por isso, concluo este artigo com as palavras de Lucinda Dâmaso “ As mulheres têm voz, usem-na” não importa a idade, não importa a igualdade de género, mas sim a segurança com que lutamos pelas nossas convicções.

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