26 Nov 2021, 08:30 Grande parte dos jovens do interior, desde muito cedo, deixam a proteção dos pais para poderem ter acesso a mais educação, mais cultura, mais desporto, mais desenvolvimento pessoal, entre outros e assim concretizar os seus sonhos.
Mariana é um desses exemplos. Desde muito cedo deixou o conforto do lar para se formar em Psicologia, no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Logo com os seus tenros 14 anos, os pais confrontaram-se com o problema da continuidade da sua formação escolar e da escolha de um novo lar, acabando por se fixar numa residência estudantil, situada a 45Km da residência paterna, na Vila de Mogadouro.
Poderemos até considerar que a Mariana teve “sorte” relativamente àqueles que ficaram em residências mais distantes e, até mesmo, àqueles que lhes coube a difícil tarefa de percorrerem, todos os dias, grandes distâncias no meio de um inverno rigoroso onde as geadas são rainhas, para concluírem o ensino secundário.
Quando terminou o liceu, Mariana rumou a Coimbra onde terminou a Licenciatura e, depois, o Mestrado em Psicologia Clínica. Haveria, aqui, muito por explorar, relativamente aos custos suportados pelas famílias, e até mesmo à equidade presente ou não, face a outras realidades do país. A questão do alojamento é, para grande parte destes jovens, uma questão complexa que pode determinar a continuidade ou não, da sua formação académica, problema que muitas vezes é minorado.
Voltando ao tema, hoje, Mariana, com 35 anos de idade, é coordenadora do projeto (RE)VESTE, um projeto de intervenção comunitária promovido pelo Centro Social de Soutelo, Gondomar, e que tem como principal objetivo a inclusão social de jovens e adultos portadores de deficiência e/ou doença mental.
As pessoas da nossa terra olham-nos com uma certa desconfiança, associam-nos à nossa família. Não existe distanciamento entre as nossas potencialidades e a nossa família
Porquê descrever a Mariana? Por uma razão muito simples: Foi notícia no PORTUGAL FASHION_SPRING 2022. Suscitou-me a curiosidade de conhecer o seu percurso, como jovem do interior. Quais as suas ambições e como aproveitar o seu potencial? Interroguei-me sobre o facto destes jovens não serem abordados no sentido de contribuírem para o desenvolvimento e crescimento nas suas terras após término do percurso académico. Achei paradigmática a sua afirmação quando diz:“ Santos da casa não fazem milagres”. Ao questioná-la, justificou: “As pessoas da nossa terra olham-nos com uma certa desconfiança, associam-nos à nossa família. Não existe distanciamento entre as nossas potencialidades e a nossa família”.
Tentei esmiuçar esta pertinente opinião, perguntando-lhe o que a leva a pensar dessa forma, ao que respondeu: “realizei um estágio no âmbito do Programa de Estágios Profissionais na Administração Local, na Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta, com a escola EB1 e pré-escola do concelho. Este estágio permitiu-me crescer profissionalmente, definir e distinguir papéis, sendo esta uma prioridade, uma vez que estes, muitas vezes se confundem num local tão pequeno e essencial para a profissão de psicóloga, que se quer neutra e empática.
Em terras pequenas existe a tendência de se colocar em causa as nossas conquistas como se não fossemos merecedoras delas
Tive uma experiência muito boa em termos de condições de trabalho e apoio, apenas havia um senão, muitas vezes era abordada com – o que fazes aqui? – como se houvesse uma certa conotação negativa: “será que estava ali por ser filha de quem sou?”. “Será que estão a colocar em causa as minhas capacidades?”. Ou então: “Será que este lugar também não me é por direito? Sentia um enorme desconforto com esse tipo de abordagem”.
Entendi perfeitamente este sentimento, pois em terras pequenas existe a tendência de se colocar em causa as nossas conquistas como se não fossemos merecedoras delas. Questionando-a sobre o que pretende para o futuro, respondeu-me:
“Neste momento, a minha prioridade é tornar o (RE)VESTE um negócio social sustentável, que permita dar continuidade ao trabalho desenvolvido e de empoderamento destes jovens e adultos. E depois, se possível, integrar alguns no mercado de trabalho.
A minha prioridade, no entanto, nunca foi ficar em Freixo, porque tinha vontade de conhecer e aprender mais. Não ficar segregada a um lugar e a determinadas formas de ser, e poder ter acesso à cultura e a outras ferramentas para poder chegar aonde quero, desde 2016, que é uma fusão entre o desenvolvimento pessoal e a arte. A longo prazo gostava de investir nas narrativas, na literatura e em ilustrações. Fazer algumas recolhas de cultura imaterial do Concelho de FEC”.
Existem muitos jovens promissores espalhados por terras que não as suas. Cabe-me fazer um apelo aos responsáveis ( autarcas, empreendedores) que aproveitem os seus recursos humanos– Não há boa terra sem bom lavrador- e desmistificar o ditado popular“ santos da casa não fazem milagres”.
É importante fixá-los e dar-lhes condições para regressarem. Quem é bom fora da sua terra é bom dentro dela. Estou convicta que a Mariana vai surpreender os FREIXENISTAS, como surpreendeu no PORTUGAL FASHION.

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