A Transtejo Soflusa (TTSL) anunciou hoje (25/10) novas interrupções temporárias no serviço. Ainda na semana passada, as ligações noturnas de barco entre o Cais do Sodré e Cacilhas estiveram suspensas “por motivo de falta de recursos humanos operacionais”. A supressão de carreiras é cada vez mais frequente, e os trabalhadores da Transtejo e da Softlusa já fizeram várias greves parciais durante este ano, este mês anunciaram mais cinco dias de greve parcial, não tendo ainda definido datas.
A Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (FECTRANS) considerou que a supressão de carreiras “não é uma situação isolada, porque é frequente anúncios destes, como foi o caso da semana passada com algumas dezenas de supressões, sendo uma questão estrutural decorrente da falta de trabalhadores que não são admitidos”.
“Não são supressões devidas a qualquer conflito laboral, mas devido à falta de respostas às reivindicações dos trabalhadores, nas quais se incluem a admissão de novos trabalhadores para substituir os que faltam, mas que o Governo continua a ignorar e os navios não funcionam sem trabalhadores”, apontou a FECTRANS, em comunicado.
Os utentes “são, cada vez, mais mal servidos devido ao desinvestimento nestas empresas públicas”, lamentam. Humberto Andrade, membro da Comissão de Utentes da Soflusa e utilizador da ligação fluvial Barreiro-Lisboa, concorda. “O serviço é miserável. Há problemas recorrentes, como a constante convocação de plenários ou greves, cada vez que isso acontece ficamos sem transporte”, afirma em entrevista ao EuroRegião.
“Queremos ser um país que incentiva o uso dos transportes públicos, mas, com estes transportes, não vamos lá”, diz membro da Comissão de Utentes da Soflusa
“As pessoas estão muitos desagradadas. Muitos dos utilizadores recebem o salário mínimo e não têm capacidade financeira para apanharem ubers ou táxis, ou para chegarem recorrentemente atrasadas ao trabalho”, explica o utente.
Como a administração da Soflusa “não cumpre integralmente com o plano de manutenção exigido para todos os barcos, e as embarcações têm 20 anos, as avarias tornam-se bastante recorrentes”. Além das supressões de serviços, muitas vezes à última da hora, segundo a Comissão de Utentes, as carreiras são insuficientes, nomeadamente fora da hora de ponta ou durante a noite. “Há noite há muito poucas carreiras, quem perde o barco, mesmo que seja por um minuto, pode ter de esperar uma hora pelo próximo ou, se for o último, tem mesmo de ficar a ‘dormir’ na estação até às cinco da manhã”, conta Humberto Andrade.
“Quem trabalha por turnos é sempre penalizado, perde 50 minutos no rio Tejo. É inadmissível que estas pessoas sejam discriminadas, porque pagam exatamente o mesmo preço de bilhete e passam mais 10 minutos no rio”, continua.
O problema de mobilidade da capital estende-se aos arredores de Lisboa. Na margem sul, a circulação continua a estar muito dependente do automóvel. No Barreiro, se faltarem os barcos da Soflusa, sobram duas opções, a travessia fluvial da Transtejo (a 20 quilómetros) ou os comboios da Fertagus (a 10 quilómetros) e, neste caso, o problema estende-se ao estacionamento insuficiente para o número de utilizadores dos serviços. “Do ponto de vista ambiental é inacreditável. Quem nos governa está-se completamente a marimbar para as emissões de CO2, ou para a vida das pessoas”, considera o utente da Soflusa.
Para Humberto Andrade, a solução para mobilidade nesta zona da Área Metropolitana de Lisboa não é nenhum segredo, até já houve várias propostas benéficas, mas acabaram por ser esquecidas. Entre elas, a expansão do metro sul do Tejo, a construção da terceira travessia do Tejo e da ponte Barreiro-Seixal.
“Por exemplo, no caso de uma greve da Soflusa, com a ponte Barreiro-Seixal, só teríamos de fazer poucas centenas de metros a pé e estávamos nos barcos da Transtejo, e vice-versa. A terceira travessia do Tejo, a ponte Barreiro-Lisboa, também é fundamental. Vemos que a ponte Vasco da Gama já começa a ter um problema de congestionamento, a 25 de Abril então, nem se fala, e a nova travessia prevê a componente ferroviária, que é o futuro da mobilidade, com opção de acomodar a rodoviária”, destaca.
O representante dos utilizadores da Soflusa considera que será impossível desencorajar a circulação automóvel sem “transportes públicos eficientes, rápidos e fiáveis”. “Queremos ser um país que incentiva o uso dos transportes públicos, mas, com estes transportes, não vamos lá”, lamenta.
