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Vogal na Assembleia de Freguesia dos Olivais
O murro no estômago
Uma reação emocional que se compreende, quando percebemos que a nossa existência pacifica e em liberdade, afinal não é garantida.
04 Mar 2022, 17:00

Uma semana de guerra. Uma eternidade sem fim à vista. O que ao início prometia ser uma caminhada triunfal dos russos sobre a Ucrânia, está cada vez mais, a transformar-se num atoleiro negro.

Para surpresa do Kremlin, mas também de Bruxelas e Washington, Zelensky decidiu resistir com tudo o que tinha. E, sendo um protagonista de 44 anos, tratou de recorrer ao maior arsenal de guerra de que dispunha: as redes sociais. Com efeito, conseguiu numa semana por a nu a enorme cobardia, até agora, dos líderes europeus, perante um Vladimir Putin, que se comporta como um “gangster soviético”.

Ver Zelensky enfrentar, de peito aberto, o senhor Putin, que fala grosso com a comunidade internacional, insinuando a ameaça nuclear, sem a devida resposta na língua das potências nucleares europeias como a Inglaterra e a França, foi sintomático. Kennedy, que não deixou Khrushchev por o “pé em ramo verde” em Cuba, também deve estar a dar voltas no túmulo com a dormência de Biden em fazer face aos russos.

Com efeito, [Zelensky] conseguiu, numa semana, por a nu a enorme cobardia, até agora, dos líderes europeus, perante um Vladimir Putin, que se comporta como um “gangster soviético”

A opinião pública ocidental sentiu o “murro no estômago”, numa indignação visceral que “apertou” com os decisores europeus. Uma reação emocional que se compreende, quando percebemos que a nossa existência pacífica e em liberdade, afinal não é garantida. Algo que os Europeus já deviam ter percebido se não andassem demasiado ocupados com o seu “umbigo” e com questões a roçar o metafísico.

Foram impostas pesadas sanções à Rússia, isolando-a economicamente. Clama-se, agora de forma quase inquisitorial, como foi possível estabelecer relações económicas com aquele país. E é aqui que devemos dar um pouco de espaço à racionalidade. Com todos os erros que possam ter sido cometidos no estabelecimento de laços comerciais, é precisamente por eles existirem que as sanções podem ser impostas e sentidas pelo país de Putin.

Se a Rússia tivesse sido deixada à sua sorte, após o desmembramento da União Soviética, neste momento, já teria sido absorvida económica e, consequentemente, política e militarmente pela China, formando um bloco poderosíssimo a nível mundial

Paradoxal? Nem por isso. Se a Rússia tivesse sido deixada à sua sorte, após o desmembramento da União Soviética, neste momento, já teria sido absorvida económica e, consequentemente, política e militarmente pela China, formando um bloco poderosíssimo a nível mundial. Ora aqui chegados, temos este delicado equilíbrio a executar: como enfraquecer a Rússia, mas sem a deixarmos demasiado fraca para cair nas mãos dos Chineses? Porque, sejamos pragmáticos, essa é a questão maior que se joga.

E, enquanto isso, por falta de antecipação ou vontade, em responder ao power play russo, o ocidente deixou que a Ucrânia e o povo ucraniano sofressem. Talvez seja por essa consciência pesada que, desta vez, não haja grandes resistências ao acolhimento de refugiados na Europa, por parte dos países do costume.

Em termos internos, a postura do PCP e do BE têm sido lamentáveis. A animosidade que têm aos EUA e, por conseguinte, à NATO, fez com que o ziguezague de declarações e votações no Parlamento Europeu, defendendo o indefensável, revelasse a verdadeira face da extrema-esquerda portuguesa. É que todos que amam a liberdade e a democracia também se sentiram atacados com cada míssil que cai na Ucrânia, com cada blindado que avança às ordens dum estado autocrata. Hoje na Ucrânia, amanhã nos Bálticos? Pararão pela Polónia? Ou porque não de novo retomar uma RDA?

No que respeita a valores fundamentais não pode haver hesitações, tibiezas nem medo do confronto! Zelensky, homem de pequena estatura, teve alma grande para corporizar precisamente isso.

No que respeita a valores fundamentais não pode haver hesitações, tibiezas nem medo do confronto! Zelensky, homem de pequena estatura, teve alma grande para corporizar precisamente isso

Uma das ideias fortes do Kremlin, tristemente também replicadas em Portugal, de forma mais ou menos dissimulada, é que a Ucrânia não tem razão de existir como nação independente. A reação daquele povo, disposto a morrer de armas na mão pelo seu país, ou melhor, sabendo que muitos irão morrer, dada a desproporção das forças em presença, é a maior afirmação do seu fortíssimo sentido de pertença a uma nação.

A maioria absoluta que os portugueses concederam ao Partido Socialista teve, sem o saberem, o condão de libertar o Governo português do apoio destes partidos. Quem diria que eram precisas mais cercas sanitárias do que se pensava a 31 de janeiro!

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