10 Dez 2021, 12:00 No caminho para as legislativas, uma das decisões mais importantes foi tomada, esta terça-feira, unilateralmente por parte do PSD: não haverá coligações pré-eleitorais, nomeadamente com o CDS. A fórmula “mágica” que levou à vitória de Carlos Moedas, in extremis, não será adotada para o contexto legislativo.
Na crónica da semana anterior, referi que as autárquicas não são legislativas. Com efeito, Rui Rio parece compartilhar a mesma opinião, tendo jogado uma partida de xadrez com Francisco Rodrigues dos Santos enquanto este pensava que estava a jogar damas.
Nos Açores, a união PSD/CDS no governo, permitiu a retirada dum bastião socialista, permitindo a Rio somar pontos e invocar uma vitória contra o PS de António Costa e Carlos César.
Nas autárquicas, Rio foi sagaz, percebeu que tinha a sua sobrevivência política em causa e foi lesto em promover uma coligação alargada à direita, servindo-se da vasta rede de autarcas fora do PSD que Assunção Cristas liderou, em 2017, alcançando, através de Carlos Moedas, a joia da coroa: Lisboa!
Durante este período todo, Francisco Rodrigues dos Santos ignorou, inocentemente, todas as sondagens que davam uma perda de relevância do CDS, não dando prova de vida per si, refugiando-se nas vitórias partilhadas nos Açores e Lisboa, além de se tentar colocar na posição de vencedor, da noite na reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa.
Não deixa, pois, de ser, duma profunda ironia, Rui Rio dispensar o CDS duma coligação pré-eleitoral baseado em sondagens, quando ele próprio tem tido uma demanda quixotesca contra as mesmas
Não deixa, pois, de ser, duma profunda ironia, Rui Rio dispensar o CDS duma coligação pré-eleitoral baseado em sondagens, quando ele próprio tem tido uma demanda quixotesca contra as mesmas. Por outro lado, Francisco Rodrigues dos Santos não percebeu que, ao constantemente falhar em ir a jogo com a marca CDS, permitiu instalar-se a perceção que o CDS não conta para o Campeonato, esquecendo-se duma lei fundamental em política: O que parece, é….
António Costa, por seu lado, com o seu faro populista que o caracteriza, percebeu que manter, doravante, Eduardo Cabrita no governo poderia fazê-lo correr o risco de ficar “contaminado” a 30 de janeiro, evidenciando assim estar um nível acima de Fernando Medina, que não soube repudiar Margarida Martins, no devido timing.
Evidentemente que Cabrita já estava a mais há muito tempo, mas Costa pressentia que os custos políticos ainda não superavam a desvantagem de o retirar dum governo cansado, com sinais de erosão política. O contexto sanitário em que vivemos, bem como a ausência de conteúdo programático alternativo simples e claro, capaz de se diferenciar da governação socialista, faz com que, caso o panorama não mude, a eleição se decida a favor de quem cometa menos erros.
Como diz um grande amigo meu, por vezes o maior desafio que temos na vida é estarmos quietos e deixarmos “correr o marfim”
A estratégia que melhor favorecerá António Costa será a de “fazer-se de morto”, mitigando o desgaste acumulado, deixando os eleitores entretidos com as “novelas internas” do PSD e do CDS, o “papão” do Chega e as tentativas de PCP e Bloco em fugir á “anemia eleitoral” em que se colocaram, após seis anos de apoio parlamentar a Costa. Como diz um grande amigo meu, por vezes o maior desafio que temos na vida é estarmos quietos e deixarmos “correr o marfim” …
A nível europeu, enquanto decorre o duelo surdo entre Rússia e Nato pela Ucrânia, tivemos a tomada de posse, na Alemanha, pelo novo Chanceler Olaf Scholz. De lembrar que, na Alemanha, os partidos com menos de 5% nas eleições legislativas não elegem qualquer deputado. Regra imposta para impedir fragmentações e ingovernabilidade.
Assim não é de espantar que Scholz já tenha sido ministro da Sra. Merkel, em governos passados, liderando agora uma coligação com o FPD (Liberais) e o Bundnis 90/Die Grünnen (os Verdes).
Até pelo carácter do sistema político alemão, não é de esperar grandes mudanças na conduta do governo alemão, que por sua vez tem impacto na política europeia.
Lembrar, no entanto, que a presença no governo dos Verdes poderá ter influência na política energética alemã que, ao abdicar da produção de energia nuclear deu, paradoxalmente, força negocial à Rússia, tanto objetivamente, na distribuição de gás, bem com politicamente, no que respeita á disputa de influência na europa central e oriental.
Se tivessem perguntado opinião a este português, ter-lhes-ia dito algo do género: Wir können nicht haben (sol na eira e chuva no nabal)…

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