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Consultor de Comunicação
Chicken Game
"Para bem de todos nós, esperemos que Putin não goste de jogar o Chicken Game. Porque, neste jogo, com estas regras, ninguém vai ganhar".
04 Mar 2022, 12:00

Já não me recordo da última vez que ouvi algo sobre o Chicken Game, um jogo muito em voga há décadas atrás nos EUA, e que era amplamente mediatizado pela indústria de Hollywood. Veja-se, por exemplo, como o conceito foi explorado na trilogia de “Regresso ao Futuro”, com o jovem Marty McFly (Michael J Fox) a ser testado, tal como o seu pai, George (Crispin Glover) tinha sido antes dele, num desafio de Chicken Game por Biff Tennen (Thomas F. Wilson) e como participar ou não neste jogo levava a mudanças alternativas no futuro.

Lembrei-me de tudo isto ao ver as últimas reações do Presidente Putin, que, ao ameaçar com o perigo do nuclear, parece querer levar a comunidade internacional a jogar com ele o “Jogo da Galinha”. Ao mesmo tempo que prova, internamente, perante uma opinião pública cada vez mais amordaçada, que no Kremlin reside o mais valente e corajoso dos intervenientes neste jogo perigoso.

O problema de Moscovo (e de todos nós) é que lançou mão da cartada nuclear cedo demais. Depois da ameaça da destruição total assegurada, já não há maior cartada que a Rússia poderá produzir para fazer valer a sua posição de força

O que o “Regresso ao futuro” mostra – e que Putin parece não ter visto – é que a melhor forma de ganhar este jogo é não o jogar. Na trilogia, Biff Tennen vê o seu carro encher-se de estrume porque foi chicken (cobardolas) no último segundo e, numa realidade alternativa, Marty McFly passa ao lado de uma carreira musical de sucesso porque destrói a mão num acidente de carro provocado por um chicken game.

Regressando à realidade, e ao fim destes intensos dias de combates, negociações, diplomacia e ameaças, o que se sabe nesta fase é que ainda há muito em jogo. Pior do que isso, porque estará, supostamente, a correr pior à Rússia e melhor à Ucrânia – que conquistou o coração da comunidade internacional – não há nada neste momento que faça supor que qualquer uma das partes envolvidas vai abdicar de recuar na corrida desenfreada de chicken game que Kiev e Moscovo acabaram por se envolver, sem que pareça que, ao fazê-lo estão a perder a face ou a serem cobardes.

O que o “Regresso ao futuro” mostra – e que Putin parece não ter visto – é que a melhor forma de ganhar este jogo é não o jogar

O problema de Moscovo (e de todos nós) é que lançou mão da cartada nuclear cedo demais. Depois da ameaça da destruição total assegurada, já não há maior cartada que a Rússia poderá produzir para fazer valer a sua posição de força.

Para bem de todos nós, esperemos que Putin não goste de jogar o Chicken Game. E, já agora, se jogar, que não se importe de perder. Porque, neste jogo, com estas regras, ninguém vai ganhar.

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