28 Jan 2022, 11:00 Está, finalmente, a chegar ao fim a campanha eleitoral. E ainda bem! O ambiente saturado nas redes sociais bem como nas televisões, sobretudo nas de cabo, está particularmente insuportável no que respeita a conflitualidade e facciosismo. No entanto, não há inocentes nesta história.
Se estivermos atentos às subtilezas comunicacionais, tanto na apresentação das notícias bem como na escolha de comentadores, ao nível de “cartilheiros da bola”, a SIC/SIC Notícias parece demonstrar preferência por Rui Rio e a TVI/CNN Portugal parece apostar em António Costa. A CNN Portugal deu-se, inclusive, ao desplante de, na última semana, promover uma entrevista com o secretário-geral do PS, sem dar a mesma oportunidade a Rui Rio.
Bem…sejamos tolerantes…. Essa opção poderá entender-se como uma compensação pelo facto de a mesma CNN Portugal, no dia 21, ter dado tempo de antena a José Sócrates que, porventura, tirará mais votos ao PS e a António Costa do que duas ou três entrevistas do líder laranja!
Mas António Costa parece estar “entalado” também por dentro, pois a campanha radical de ataque pessoal a Rio, que o PS encetou a todo o vapor na última semana, mais parece ser coordenada por Pedro Nuno Santos, preparando já um frentismo de esquerda na oposição, sendo objetivamente um tiro no pé para Costa, cujo maior trunfo político sempre foi a sua imagem de político tolerante e dialogante que, manifestamente agrada aos moderados. Afinal, convém não esquecer, apesar dos media, por razões de audiência, procurarem extremar tudo, os portugueses são um povo maioritariamente moderado…e ainda bem!
Caso se confirme, perdendo representação parlamentar significativa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Rodrigues dos Santos deveriam ter a dignidade de colocarem o seu cargo á disposição
A noite eleitoral adivinha-se, pois, bem interessante. Estando a vitória em aberto, duvido que Rio ou Costa tomem alguma decisão no momento, caso não a vençam. As sondagens poderão ter um grau de incerteza maior no que respeita a PSD e a PS, mas no que respeita aos outros partidos não falharão muito. Caso se confirme, perdendo representação parlamentar significativa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Rodrigues dos Santos deveriam ter a dignidade de colocarem o seu cargo á disposição.
No entanto, como o instinto de sobrevivência do ser humano é fortíssimo, caso o seu lado do hemiciclo seja o mais forte, irão agarrar-se que nem lapas ao cargo, tendo porventura o topete de transformar as suas derrotas em vitórias, pois proclamarão que os seus deputados são decisivos para uma nova maioria. Previsível, mas ridículo como sempre em todas as noites eleitorais.
A Iniciativa Liberal e o Chega ganharão sempre pois triplicarão no mínimo a sua representação parlamentar. A esses falta conhecer apenas a dimensão do seu sucesso. Será, pois, um serão bem animado este fim de semana.
O que quase não se falou foi de Europa. O que se está a passar, ou melhor, o que se pode vir a passar na Ucrânia não é despiciente
O que quase não se falou foi de Europa. O que se está a passar, ou melhor, o que se pode vir a passar na Ucrânia não é despiciente. A questão é bem mais profunda que apenas a sua componente militar. A visão da política energética da Europa determina este power play da Rússia. O leitor acha que é inocente isto tudo estar a acontecer em pleno janeiro, quando o gás russo é vital para o aquecimento da Europa? Aquilo que devemos questionar é: como foi possível ter-se deixado a agenda “politicamente correta” ter posto em causa a questão da independência energética?
devia (-se) ter discutido muito mais a opção da energia nuclear nesta campanha bem como os moldes da exploração do lítio em Portugal
Daqui resulta que se devia ter discutido muito mais a opção da energia nuclear nesta campanha bem como os moldes da exploração do lítio em Portugal. O facto de a Alemanha ter abdicado das centrais nucleares de forma apressada pelo “fantasma” de Fukushima torna-a agora débil perante os avanços russos na sua pretensão de expandir de novo a sua fronteira de influência á dimensão soviética.
Numa era de tanta informação, parece anedótico como os europeus parecem ter esquecido a máxima romana si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara a guerra). Proclamação de princípios e leis vanguardistas sem capacidade de atuar apenas provoca gargalhadas nos Putins e Lukashenkos desta vida…

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