03 Dez 2021, 11:00 A 5 de dezembro de 1996, o Centro Histórico do Porto foi classificado como Património Mundial pela UNESCO. Da lista de critérios para a obtenção deste “título”, o IV foi decisivo: “este bem possui notável valor pelo seu tecido urbano e pelos seus inúmeros edifícios históricos que testemunham o desenvolvimento ao longo do último milénio de uma cidade europeia, virada para o ocidente pelas suas ligações comerciais e culturais” (sic).
No entanto, e não de somenos importância, o critério V: “ser um exemplo excecional de povoamento humano tradicional (…) que seja representativo de uma cultura (ou culturas), ou da interação humana com o meio ambiente (…)”, colocou o acento tónico nas “gentes” e na “tradição”, portanto, na cultura local. A mesma lista de critérios termina com a seguinte observação: “Para ser considerado de Valor Universal Excecional, um bem deve também responder às condições de integridade e/ou autenticidade (…)”. É aqui, nos tempos em que vivemos (também) no Porto, que começam os problemas… a “autenticidade” é a palavra-chave! A “autenticidade” sem a recuperação material das áreas urbanas fundamentais, de pouco valeria para este processo.
Nasce, assim, em 1974, por proposta do Governo central à época, através do arquiteto, Nuno Portas — então Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, o CRUARB (Comissariado para a Renovação Urbana da Área Ribeira-Barredo), tendo como responsável o, também arquiteto, Jorge Gigante.
A classificação de Património Mundial pela UNESCO é para sempre? Indo direto ao assunto: não é! Esta importante classificação tem de ser cuidada, todos os dias
Não nos interessará para aqui os diversos passos que, entre 1974 e 1996, foram dados para que este reconhecimento mundial dignificasse e orgulhasse a cidade invicta. Interessa contribuir para responder à questão formulada no título deste artigo de opinião: A classificação de Património Mundial pela UNESCO é para sempre? Indo direto ao assunto: não é! Esta importante classificação tem de ser cuidada, todos os dias.
O poder central, local e os cidadãos têm de se consciencializar e de unir esforços para que a Cultura, o Património, os usos e costumes, o planeamento urbano e o tecido social sejam preservados e protegidos, sobretudo do perigo da descaracterização.
Fatores como a gentrificação, a densidade e a asfixia da construção, o excesso de presença de “marcas brancas”, sejam de fast-food, de grandes cadeias comerciais de roupa ou de hotelaria, excesso de pegada turística (leia-se concentração massiva de turistas em áreas reduzidas), entre outros, podem ser fatais!
No dia em que a roupa dos habitantes posta a secar no lado de fora das janelas, for substituída pelas toalhas de marca dos hotéis, está dado o grande passo para o Porto deixar ser Património Mundial!
E tanto assim é que, este ano, a UNESCO retirou o porto de Liverpool da lista de Património Mundial. De acordo com as notícias , “os novos planos de construção e alterações no local estiveram na base da decisão: três edifícios de grandes dimensões e um novo estádio de futebol”.
Não se confunda, pois, descaracterização com recuperação, autenticidade com atrações turísticas e integridade (do espaço e do tecido social) com inovação. No dia em que a roupa dos habitantes posta a secar no lado de fora das janelas, for substituída pelas toalhas de marca dos hotéis, está dado o grande passo para o Porto deixar ser Património Mundial! Atenção: isto pode mesmo acontecer…!
A UNESCO retirou o porto de Liverpool da lista de Património Mundial. De acordo com as notícias , “os novos planos de construção e alterações no local estiveram na base da decisão: três edifícios de grandes dimensões e um novo estádio de futebol”
Por estes dias comemorou-se mais um aniversário desta distinção. Também por isso, julgo ser necessário, mesmo em tempos de pandemia ou de preocupações cíclicas com ela, debater e refletir sobre esta questão. O Porto não se pode desleixar ou inebriar com (pseudo)sucessos efémeros. Não queiramos que os nossos governantes digam o que disse o governo britânico: “estamos extremamente dececionados”.

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