NAZARÉ: DAS SETE SAIAS ÀS ONDAS GIGANTES
A época de ondas grandes decorre entre setembro e março. No fim de semana passado (08-09), o Canhão da Nazaré esteve bastante ativo.
Manuel Ribeiro
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10 de Janeiro 2022, 20:05
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As ondas gigantes voltaram no sábado (08/01) à Nazaré fazendo com que três surfistas tivessem de ser resgatados pelas equipas de salvamento, dois deles foram transportados ao hospital. Uma surfista, foi assistida no local.

A previsão da altura das ondas para sábado era de 20 metros, fazendo com que muitos surfistas se fizessem ao mar da Praia do Norte para tentar quebrar o recorde da maior onda surfada.

Poderá ter sido o caso de Pedro Scooby, surfista brasileiro, que publicou no Instagram um vídeo seu a descer o Canhão da Nazaré.

Das sete saias às ondas gigantes

A mulher nazarena é conhecida pelas sete saias, um dos símbolos da Nazaré, mas desde que um surfista americano de apelido Mcnamara se fez ao mar em 2011, para desafiar a mãe-natureza surfando a maior onda do mundo, a Nazaré passou a ter dois ícones: a Nazaré das sete saias e as ondas gigantes.

O significado das setes saias tem muitas interpretações, uma delas refere-se às mulheres dos pescadores que sentavam-se no areal da praia à espera dos seus maridos sob um frio enregelante. Como precisavam de se manter quentes, vestiam várias saias. Outra das explicações para as sete saias diz que:

quando os barcos esperam raso no mar, para encalhar, o raso geralmente acontece de sete em sete ondas, as quais as nazarenas contavam pelas próprias saias, dobrando-as levemente, uma a uma, até à última saia e última onda – desse modo, não se enganavam na contagem. Ao fim da última saia, esperava-se um bom raso para o ‘seu’ barco encalhar!

Mcnamara não foi o primeiro a surfar o mar da Nazaré, há muito que as ondas grandes desta região são desafiadas, sobretudo por bodyboarders, mas a surfada de Garret Mcnamara bateu o Recorde Mundial do Guiness de ondas gigantes ao ultrapassar os 23 metros.

O vídeo que registou o momento correu o mundo, colocando esta vila piscatória no mapa do surf mundial para ondas gigantes.

Em 2017, o recorde de Mcnamara seria quebrado por Rodrigo Koxa. O surfista brasileiro surfou a maior onda de sempre registada até hoje, com 24,38 metros, também na Nazaré.

A pesca tem sido a atividade económica principal da Nazaré. Conhecida por ser um ponto de descanso para os peregrinos a caminho de Fátima, a vila vê o turismo trazido pelo surf como uma alternativa ao mar. Antigamente, no inverno, a cidade ficava praticamente deserta. Atualmente, por causa das ondas gigantes que se tornaram mundialmente famosas, surfistas de todo o mundo vêm à Nazaré para testar os limites deste desporto que, neste segmento, se pode classificar de “radical” e, com isso, milhares de turistas se deslocam à Praia do Norte, entre setembro e março, para desfrutar do gigantesco espetáculo que o Canhão da Nazaré proporciona nesta altura do ano.

Como se formam as ondas gigantes da Nazaré?

O Canhão Submarino da Nazaré é o responsável pelas enormes ondas que se formam na Praia do Norte. Conhecido desde há muito tempo como “o abismo insondável”, era uma zona temida pelos pescadores. Diz-se, inclusive, que o submarino alemão U-963 da Segunda Guerra Mundial jaz naquelas profundezas. O Canhão da Nazaré é considerado o desfiladeiro submarino mais longo da Europa.

De acordo com o Monican, o Observatório do Canhão da Nazaré do Instituto Hidrográfico Português, os canhões submarinos são vales encaixados no fundo do mar no qual correm rios cujas correntes transportam sedimentos e geram fenómenos erosivos.

A cabeceira do canhão encontra-se a menos de 1 km a SW da Nazaré. “Este canhão disseca a margem continental ibérica segundo a direção este-oeste, desde a plataforma continental, a profundidades de 50 metros, até à planície abissal ibérica, a 211 km da cabeceira, onde atinge profundidades na ordem dos 5000 metros”.

A ondulação que chega à zona costeira propaga-se mais rápido sobre o canhão onde a água é mais profunda do que na plataforma adjacente, onde a água é pouco profunda. Esta diferença modifica a orientação das linhas de crista e cavas e exerce uma “influência significativa sobre os processos hidrodinâmicos, conduzindo à criação de condições oceanográficas particulares, intrinsecamente relacionadas com a sua morfologia”.
No caso particular da Nazaré, por estar próximo do litoral, a onda “é refratada pela topografia do fundo do mar” criando zonas de convergência. “Esta convergência focaliza a energia da onda” e amplifica o seu tamanho.

Uma onda de 10 metros de altura pode ser aumentada por este processo atingindo o dobro de altura, sobretudo na Praia do Norte.

As maiores ondas surfáveis do mundo podem ser apreciadas na Nazaré até meados de março de 2022. Para esta temporada, a Câmara Municipal reforçou o plano de segurança na Praia do Norte de modo a responder às condições do mar classificadas em 4 níveis de risco, designadamente:

– Nível verde, ondulação até aos 5 metros, não haverá dispositivo acionado.
– Nível amarelo, ondulação entre os 5 e os 10 metros, sistema de segurança afeta dois vigilantes com o apoio de um Buggy para vigiar a área onde costuma decorrer ação no mar.
– Níveis laranja (com ondas entre os 10 e os 15 metros) e vermelho (para dias de ondas gigantes, com uma altura superior aos 15 metros), será acionado um dispositivo musculado, que inclui bombeiros, nadadores-salvadores, trator e equipa médica (nível vermelho).

 

Foto: Praia do Norte, Nazaré/Luís Ascenso (CC BY 2.0)

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