GUERRA DO TIKTOK: DAS DANÇAS E PIADAS PARA OS RELATOS DO CONFLITO
Na rede social preferida dos mais novos, crescem os relatos na primeira pessoa da guerra na Ucrânia. Conversámos com uma jovem ucraniana, a viver em Portugal, que está determinada a informar.
Beatriz Abreu Ferreira / Manuel Ribeiro
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15 de Março 2022, 13:30
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Kristina Skilska é um dos mais recentes fenómenos do TikTok em Portugal. Até há menos de um mês, a vida desta jovem ucraniana de 19 anos, a frequentar o ensino secundário, era semelhante à de todos os seus colegas. As redes sociais serviam para partilhar “umas piadas”, que transpareciam a leveza dos seus dias, até que no dia 24 de fevereiro o seu país entrou em guerra.

“Eu antes fazia vídeos no TikTok assim com um conteúdo mais descontraído, umas piadas ou assim… E depois quando a guerra aconteceu, que foi no dia 24 de fevereiro, decidi publicar um vídeo simples, mas comigo a chorar e a pedir que a guerra acabasse. Depois fui à minha vida, e quando acordei tinha 20 mil visualizações no vídeo, [que estava] cheio de comentários, fiquei chocada,” conta em entrevista ao EuroRegião.

Como parte de uma geração habituada a partilhar o seu dia-a-dia e as suas emoções na internet, Kristina não esperava atrair tantas atenções com o seu desabafo, mas num momento em que todo o país despertava para o conflito na Europa, o seu vídeo foi ganhando cada vez mais visualizações.

“A minha intensão não era ganhar seguidores com isto, como é óbvio. Mas foi o que aconteceu. Cada dia comecei a ter mais, e mais, visualizações [no vídeo] e, entretanto, fui respondendo às pessoas porque estavam curiosas para saber como era com a minha família, como é que ela estava ou como é que ela não estava,” continua a jovem que reside em Portugal há 10 anos.

No TikTok, conhecido pela sua popularidade entre os mais novos e pelas coreografias virais, cresce o interesse em perceber o que se passa na Ucrânia, sem intermediários. Em vez de seguirem as notícias na televisão ou nos jornais, cada vez mais pessoas utiliza as redes sociais para saber o que se passa no país, através das partilhas dos próprios cidadãos. Nesta rede social, vários utilizadores ucranianos ganharam milhões de seguidores em todo o mundo, e Kristina percebeu que poderia tirar proveito desta tendência para espalhar informação. Deste modo, acredita estar a ajudar o seu país, onde continua a ter familiares e amigos.

“Há imensa informação que não é divulgada na televisão e nós [ucranianos] temos grupos onde somos informados ao segundo, ou seja, sabemos tudo o que se passa lá, e acho que as pessoas em Portugal e no mundo inteiro devem saber esse tipo de pormenores, e foi por isso que fui publicando e informando as pessoas,” e “acho que pode ter um impacto positivo, eu recebi muitos comentários positivos,” explica.

Como Kristina acredita na veracidade das informações que lhe são transmitidas diretamente pelos seus compatriotas, os elementos de verificação de informações e de fontes não são uma prioridade. Nos vídeos que partilha tanto relata episódios da vida dos seus familiares como histórias contadas entre o povo ucraniano. Mas, no seu entender, está apenas a matar a curiosidade dos seus seguidores.

“Há muita informação na ‘net’. As pessoas nem precisam de procurar, basta entrar numa rede social e esta informação está toda à vista. As pessoas têm noção daquilo que se passa, mas estão curiosas de saber como é que tudo está a acontecer. Há sempre curiosidade em saber como está a minha família e como são as coisas no dia-a-dia [na Ucrânia],” argumenta.

A jovem admite que ela própria já foi vítima do excesso de informação, mas nem isso a demove de continuar. “Nos primeiros dias foi mais complicado, eu não conseguia dormir nem conseguia comer. Estive sempre no telemóvel a ver informação o tempo inteiro, mas depois percebi que isso não me fazia muito bem. Eu chegava ao fim do dia e estava morta, mortíssima mesmo, não tinha vontade de fazer nada” e como “tenho lá família e amigos é muito complicado. Estás sempre a ver as notícias, parece que estás sempre sob pressão. Porque nunca sabes se vai cair uma bomba em casa da tua família ou em casa dos teus amigos, e se alguma coisa acontecer não vais conseguir entrar em contacto com eles e isso deixa-me muito triste… porque nunca sabes, nunca sabes”.

Além disso, conforme foi ganhando mais seguidores, começou a receber “opiniões diferentes” da sua. “Umas [pessoas] diziam “volta para o teu país, não deves estar cá”. Eu acho que estas pessoas não têm noção do que está a acontecer. Eu acho que é mais útil eu estar cá, e enviar dinheiro e comida, do que estar lá. O meu propósito é explicar isso às pessoas para elas entenderem melhor a situação,” garante.

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