ENTOGREEN: A INOVADORA FÁBRICA DE MOSCAS
Fomos conhecer a Entogreen, uma empresa de produção de moscas. Estes insetos, ignorados por quase todos, têm um grande potencial no combate ao desperdício e no futuro da alimentação.
Beatriz Abreu Ferreira / Manuel Ribeiro
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8 de Abril 2022, 17:30
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No distrito de Santarém, está a nascer a primeira fábrica de produção de moscas do país. Mas, estes insetos terão uma utilidade bem maior do que aqueles que estamos habituados a enxotar durante o verão. As larvas da Entogreen são transformadas em óleo e farinha, e utilizadas para a produção de alimentação animal.

O EuroRegião conversou com Diogo Palha, um dos administradores da empresa, para conhecer este projeto e os seus planos para o futuro.

EuroRegião (ER): O que é a Entogreen?

Diogo Palha (DP): Somos uma empresa de biotecnologia assente em investigação e desenvolvimento que consiste na utilização de um inseto, a mosca-soldado-negro, para biodigerir resíduos e subprodutos vegetais. Ou seja, esta mosca, na sua fase larvar, tem muita fome e come de uma forma bastante intensa, tendo capacidade para digerir subprodutos vegetais. Produtos estes que são descartados pelas fábricas industriais que fazem, por exemplo, aqueles saquinhos de vegetais que compramos congelados nos supermercados. Nós trabalhamos com o produto que é descartado por eles. É o produto que entrou em fábrica, e que está bom, mas é descartado pelo seu aspeto.

A larva cresce, à medida que se vai alimentando, vai fazendo também os seus dejetos, e no fim é separada, para um lado vão os seus dejetos que são um fertilizante orgânico de muito boa qualidade, e para o outro, a larva gorda que é depois transformada em farinha e em óleo para alimentação animal.

ER: Como surgiu a ideia de criar uma fábrica de moscas?

DP: O nosso fundador e CEO, o Daniel Murta, é médico veterinário e quando estava a fazer o seu doutoramento cruzou-se com este tema dos insetos, em 2011. Isto hoje parece um tema exótico, e em 2011 era ainda mais exótico. Mas, ele viu que o potencial dos insetos era muito grande, para resolver dois desafios da nossa sociedade, por um lado a população mundial crescente que precisa de novas fontes de proteína sustentável, porque não dá para continuar a produzir e a crescer com as fontes tradicionais de proteína animal – a carne de vaca, de porco, de frango, etc.

As larvas da Entogreen são transformadas em farinha e em óleo para a produção de alimentação animal.

Por outro lado, também para responder ao desafio dos desperdícios. Nós, na verdade, embora precisemos muito destes nutrientes, não conseguimos evitar que no processo do campo até ao prato existam grandes desperdícios, que são nutrientes que se perdem e que podem ser aproveitados.

Houve um grande salto neste setor quando, em 2013, a própria Agência das Nações Unidas para a Alimentação alertou para o potencial dos insetos na alimentação, o que fez com que as universidades começassem a trabalhar mais este tema. O Daniel já o trabalhava, mas serviu como validação de que estava no caminho certo e, em 2014, criou a empresa.

ER: As pessoas normalmente pensam que as moscas não têm utilidade e até se tentam livrar delas. Afinal, elas servem para alguma coisa.

DP: Nós temos um colega que diz sempre que até conhecer a Entogreen achava que as moscas eram um animal do demónio, afinal já descobriu que as moscas também foram criadas por Deus. Na verdade, elas servem na própria natureza, porque ajudam a acelerar o processo de compostagem. A nossa larva até prefere carne do que vegetais, nós não podemos, por motivos legais, alimentar a larva com subprodutos de origem animal, mas na natureza a mosca prefere encontrar um cadáver do que um molho de couves, e é importante no processo de biodegradação das matérias orgânicas. Elas já tinham uma função, nós não percebíamos é que podíamos dar-lhes uma função ainda maior, além da de nos chatearem quando andam a voar de um lado para o outro. E a nossa mosca é muito mansinha, não é como a mosca doméstica que anda a voar muito e a chatear-nos muito, esta mosca consegue pousar no nosso ombro e ficar ali o dia inteiro.

A introdução das larvas na alimentação humana na forma de farinha “é um caminho possível”.

ER: Porquê a escolha da cidade de Santarém?

DP: O motivo inicial foi o facto da Estação Zootécnica Nacional, um polo do Instituto de Nacional de Investigação Agrícola e veterinária, aqui em Santarém, que se disponibilizou para acolher a nossa colónia de insetos. Coisa que as incubadoras não queriam muito. Depois, há um motivo ainda mais importante para continuarmos que é a proximidade da matéria-prima. Santarém, como é o coração da zona agroindustrial do país, tem várias fábricas aqui que correspondem ao tipo de subprodutos que nós conseguimos misturar para a alimentação das larvas.

ER: Quando começou o projeto e em que fase está?

DP: A empresa começou logo em 2014 a desenvolver projetos de I&D. Depois, no final de 2019, preparámo-nos para procurar financiamento para construir a nossa primeira fábrica, e é isso que estamos a fazer. O ano de 2021 foi dedicado à contratualização e ao início dos trabalhos, e agora, em 2022, estamos em pleno a montar a nossa unidade industrial que estará em laboração no segundo trimestre do ano.

Diogo Palha apresenta Entogreen no EuroRegião Talks, em Santarém. Foto: GRPC | Município de Santarém © 2022.

ER: A Entogreen beneficia de apoios comunitários. Qual é a importância deste apoio para a vossa empresa?

DP: Neste momento temos em curso quatro projetos financiados, o de inovação produtiva, para a construção da fábrica que é apoiado pelo Compete 2020, no âmbito do Portugal 2020. Temos também o projeto para a contratação de um recurso humano altamente qualificado, que é também apoiado pelo Portugal 2020, mas através do Alentejo 2020. Temos o projeto NETA, de copromoção, mas do qual somo líderes, que também está em curso e também é financiado pelo Compete 2020. E temos um outro projeto de I&D, onde somos apenas participantes, com um conjunto alargado de entidades internacionais, que é o projeto RECOVER, apoiado pelo Horizonte 2020.

Têm sido determinantes estes apoios, não digo que não fossemos capazes de fazer o que temos vindo a fazer, mas necessitaríamos de maior investimento privado e, para uma start-up, conseguir investimento privado num tema altamente inovador, onde não existe grande benchmark, as pessoas não conhecem projetos semelhantes, os resultados são incertos porque nunca se viu uma fábrica destas, é muito difícil conseguir investidores privados. Portanto, o facto de termos surgido aos investidores com uma candidatura aprovada foi fundamental para que eles também entrassem neste projeto. Sem os fundos europeus provavelmente teria demorado muito mais tempo, dificilmente conseguiríamos atingir a escala que estamos a atingir e, quanto aos projetos de I&D, provavelmente se não fossem financiados, não se fariam porque não são absolutamente prioritários.

ER: E quando à candidatura ao PRR. Porque decidiram liderar a candidatura à agenda mobilizadora?

DP: Era muito importante ter uma agenda de mobilização num setor que é novo, portanto calhou muito bem. Nós pensávamos muito nisso e quando surgiu a altura de fazermos uma candidatura já tínhamos muitas ideias estruturadas, não tínhamos era capacidade para fazer uma coisa destas.

A liderança surgiu porque, na verdade, a nossa empresa é a que mais tem estudo e pensado sobre este setor. Nós somos uma start-up, vivemos como uma start-up, mas já somos uma empresa com oito anos. Os nossos fundadores pensam nisto há 11 anos. Tínhamos um pensamento muito estruturado e quando partilhámos esse pensamento com as entidades houve uma união no setor. Juntámos, num primeiro momento da candidatura, 38 entidades, desde as entidades do sistema científico, às empresas e associações empresariais, e até uma entidade governamental, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária.

ER: Até agora, qual tem sido a reação das pessoas ao projeto?

DP: São produtos que interessam muito ao mercado porque fazem todo o sentido, não só pela sua qualidade intrínseca, mas porque permite às empresas entrar nesta dinâmica de sustentabilidade. A reação está a ser muito boa. Do ponto de vista dos investidores, estão muito expectantes, estamos todos muito ansiosos para ver esta fábrica a trabalhar.

ER: Que objetivos têm para o futuro?

DP: Queremos continuar a crescer na parte de investigação e no melhoramento da fábrica. Por exemplo, o processo de biodigestão da nossa larva demora um determinado número de dias e se conseguirmos reduzir esses dias teremos maior capacidade de produção, se conseguirmos produzir mais ovos teremos capacidade para ter mais larvas, e se conseguirmos aumentar o peso dessas larvas, teremos mais proteína. Portanto, há muito ainda que queremos fazer para melhorar o nosso processo.

E depois, valorizar os produtos finais. Sabemos, por exemplo, que o nosso óleo é muito bom para a alimentação animal, mas também pode ter utilizações químicas interessantes. Pode ser utilizado em tintas, vernizes ou cosméticos.

Para a alimentação humana demorará um bocadinho mais porque a mosca-soldado-negro come de tudo e enquanto não houver certificações será difícil que ela esteja nos supermercados para alimentação humana. Mas é um caminho perfeitamente possível, porque uma vez controlada a sua alimentação, os temas de segurança alimentar estão garantidos, e a proteína vinda da mosca-soldado-negra não é inferior à de outros insetos.
Nós, ocidentais, olhamos para os insetos e faz-nos um bocado de confusão. Mas, os humanos que quiserem introduzi-los na sua alimentação vão come-los em forma de farinha, numa bolacha ou numa panqueca. Nós também não nos perguntamos como é que é feita a margarina, ou uma salsicha, o fiambre… se calhar se víssemos o processo produtivo também não achávamos muito agradável. Mas depois o produto final é bom, tem segurança alimentar e nós gostamos dele.

Por outro lado, queremos crescer em número de unidades. A larva pode comer produto como o bagaço de azeitona, um enorme problema ambiental que existe no setor do azeite, e portanto estamos empenhados em replicar a fábrica de Santarém, não necessariamente a comer os vegetais aqui de Santarém.

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