DESCOBRIR A MOURARIA: BERÇO DO FADO E DA DIVERSIDADE
O EuroRegião foi conhecer um dos bairros mais típicos de Lisboa, pelos olhos dos seus novos moradores.
Beatriz Abreu Ferreira / Manuel Ribeiro
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18 de Novembro 2021, 15:30
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Andar pelas ruas da Mouraria é ser levado numa viagem sensorial pelo mundo. Neste que é um dos bairros tradicionais da cidade de Lisboa, os alfacinhas ganharam novos vizinhos, já que entre os cerca de seis mil habitantes, existem 50 nacionalidades distintas.

Carla Costa, coordenadora do projeto Migrantour da Associação Renovar a Mouraria, conta ao EuroRegião que foi precisamente esta riqueza cultural e “geografia muito plural” do bairro que levou a associação a começar a realizar estas visitas guiadas.

Andar pelas ruas da Mouraria é ser levado numa viagem sensorial pelo mundo

A Migrantour nasceu em Turim e depressa se espalhou pela Europa, chegando a Lisboa em 2015. Esta iniciativa “visa desenvolver uma narrativa positiva sobre a imigração e auxiliar a inclusão de pessoas migrantes nos seus países de acolhimento”, explica a responsável.

Ao contrário das tours mais comuns, estas visitas são guiadas por imigrantes, que não se limitam a dar uma aula de história, em vez disso, contam-nos aquilo que já aprenderam sobre o passado da cidade, sobre a identidade multicultural que esta está a desenvolver, e partilham histórias pessoais e das suas culturas e tradições.

“É positivo para estas pessoas que encontram o seu lugar em novas moradas, mas ao mesmo tempo também para quem acolhe, porque recebe esta literacia sobre o mundo, sobre outras visões, outras tradições, práticas e valores. Esta troca é aquilo que o Migrantour se propõe a fazer”, sublinha Carla Costa.

Este episódio é muito triste porque mostra uma inflexibilidade e intolerância muito forte. Começamos nesse lugar, que tem um mural em mais de 30 línguas diferentes, que apela à tolerância e à aceitação da multiculturalidade

A visita começa num local que sugere reflexão – o Largo de São Domingos. Aqui, aconteceu um dos “acontecimentos mais tenebrosos da história de Lisboa”, o massacre judeu do início do século XVI.

A escolha para o início do trajeto é simbólica, justifica a coordenadora das tours, “este episódio é muito triste porque mostra uma inflexibilidade e intolerância muito forte. Começamos nesse lugar, que tem um mural em mais de 30 línguas diferentes, que apela à tolerância e à aceitação da multiculturalidade”.

Depois de lembrar a tragédia do passado, seguimos em direção ao palco da feliz convivência do presente – a Mouraria. Na subida para o bairro já se sentem os cheiros a especiarias e ouvem-se idiomas indistinguíveis.

A Rússia tem sempre muitas guerras. A guerra da minha geração foi a do Afeganistão, onde morreram muitos dos meus amigos da escola

Rosi Ferh, imigrante brasileira, e Margarita Sharapova, com nacionalidade russa, lideraram a visita que o EuroRegião acompanhou.

Margarita ainda está a aprender português mas não deixa que isso a limite, e fala corajosamente para o grupo de portugueses que acompanha a visita, sem se deixar atrapalhar. Com vista para o castelo de São Jorge, onde esvoaça a bandeira nacional, mostra-nos a bandeira da Rússia, em que o vermelho, diz, simboliza o sangue “porque a Rússia tem sempre muitas guerras. A guerra da minha geração foi a do Afeganistão, onde morreram muitos dos meus amigos da escola”. Esta partilha de histórias tão pessoais e, por vezes, emotivas é uma das grandes ênfases da visita. O objetivo é lembrar que mais do que guias, ou migrantes, nestas tours somos acompanhados por pessoas com a sua própria história e cultura.

Martim Moniz, a praça que “dividia Lisboa suja da limpa”

Avançamos até ao Martim Moniz, talvez a praça mais multicultural do país, onde são celebradas festividades de todo o mundo, e onde as nossas guias especulam sobre as possíveis histórias que sustentam a lenda do heroico cavaleiro do século XII que se terá sacrificado para ajudar a recuperar a cidade aos mouros, numa abordagem única que conquista as risadas do público.

“Eles conquistaram Lisboa, mas não expulsaram os mouros, esta praça passou a dividir o lado da Lisboa suja, que não tinha saneamento, e que foi onde eles ficaram a viver e o lado de lá, mais perto do rio e com mais luz, que era a Lisboa limpa”, explica Rosi, lembrando o passado, mas fazendo pensar sobre o presente.

Migrantour. Foto: Carla Costa

Aqui as ruas ainda são sujas e pouco cuidadas, mas estão cheias de caras simpáticas que nos vão dizendo “olá” e “boa tarde” com os seus sotaques únicos. No centro comercial da Mouraria, resta apenas uma loja de portugueses, fruto das transformações do bairro que aumentaram a procura de produtos de todo o mundo.

A associação do Bangladesh utiliza o espaço para dar aulas de português a estrangeiros de mais de 40 países

Durante a visita, entramos numa das primeiras escolas para raparigas da primeira república. Aqui ainda existe uma escola, mas esta já não discrimina nem por género nem por nacionalidade. A associação do Bangladesh utiliza o espaço para dar aulas de português a estrangeiros de mais de 40 países. “Além do ensino, a associação desenvolve um importante trabalho de apoio à comunidade migrante e à comunidade local que sofreram muito com o impacto da pandemia”, conta um dos responsáveis da associação. “Aquilo que tentamos é contribuir com algo de positivo para a comunidade e contribuir para uma construção social saudável”, acrescenta.

Neste bairro, a diversidade está também espelhada nas paredes

Num parque infantil pintaram-se desenhos de várias crianças com características distintas, mas brincadeiras conjuntas, um reflexo do que acontece no interior desse espaço.

A visita termina no Largo de Severa, a primeira fadista conhecida, com uma pequena aula de danças internacionais. No berço do Fado, Margarita conta, entusiasmada, como encontrou Carlos do Carmo numa visita ao Museu do Fado e guarda “com muito orgulho” a selfie que tiraram para recordar o momento.

“Os guias têm formação connosco para uma narrativa que visa transmitir a história da Mouraria, mas também as suas reflexões e histórias pessoais. Por isso as visitas são únicas, são muito humanas, muito alicerçadas nos afetos e na criação de comunidade independentemente das fronteiras,” explica a coordenadora da iniciativa.

“Na verdade, todos nós como indivíduos temos dentro de nós muitos mundos, o movimento faz parte da história humana. No nosso sangue com certeza que corre ADN de outros lugares do mundo, portanto temos de aceitar essa diversidade que todos nós somos, e mais do que definirmo-nos pela nacionalidade que temos, definirmo-nos pela humanidade que somos”, termina.

Participar na Migrantour tem um custo de 10 euros por adulto, com preços especiais para escolas e universidades, mediante inscrição com a Associação Renovar a Mouraria. O projeto é co-financiado por fundos comunitários no âmbito do Erasmus+.

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