O EuroRegião conversou com Gonçalo Hall, o responsável pela Digital Nomad Village, um projeto pioneiro em todo o mundo, que transformou a Ponta do Sol, na Madeira, no destino de sonho para nómadas digitais.
EuroRegião (ER): O que é a Digital Nomad Village?
Gonçalo Hall (GH): Os nómadas digitais viajam pelo mundo, não têm casa, não têm carro, e ficam normalmente dois ou três meses em cada sítio. Então, o projeto que eu criei defende que podemos utilizar o nomadismo digital para começar a popular vilas. Se as pessoas podem trabalhar remotamente, já não têm de estar nas cidades, que até são dos sítios com menos qualidade de vida. Então, porque não viver em sítios mais bonitos, com uma comunidade mais pequena, onde podemos fazer amigos e conhecer quem está à nossa volta.
Foi com esta base que eu desenhei o projeto para o Nomad Village, na vila da Ponta do Sol, onde criámos todas as condições para que as pessoas possam vir para aqui desfrutar, trabalhar e acima de tudo criar conexões reais. Até porque quem vem, muda de sítio de três em três meses, mas também sente saudades de ter amizades e de criar relações pessoais.
Eu acredito que a melhor forma de repopular é através da parte social, e não pela vila ser bonita, podes estar na vila mais bonita do mundo, mas se não tiveres vida social não vais querer ficar lá. Ao compreendermos que as pessoas se mudam para círculos sociais e não para locais físicos podemos criar um projeto muito mais interessante.
ER: Como surgiu a ideia de criar uma vila digital?
GH: Eu já estava em trabalho remoto há vários anos e já seguia alguns projetos de repopulação, e sempre tive esta ideia de que esta era a ferramenta certa, não só para combater a depopulação, mas também, por exemplo, para pessoas da Madeira não terem de sair da Madeira, ou para pessoas de África poderem trabalhar para todo o mundo desde o seu país, desde a sua vila.
“Começámos a atrair, para uma pequena ilha de cinco mil pessoas, negócios mundiais”.
Então, juntei o que de melhor estava a ser feito em termos de projetos de repopulação através do trabalho remoto, e com aquilo que eu via nas melhores comunidades do mundo de nómadas digitais. No fundo, foi juntar os dois com o objetivo de criar uma comunidade muito dinâmica, mas já a pensar no funil de repopulação, em que começas com os nómadas digitais que ficam 2/3 meses, mas muitos acabam por ficar e comprar casa, já temos mais de 100 casas vendidas aqui, ao que 25% deles são empreendedores e vão abrir empresas, então basicamente funciona como um funil. Só que em vez de tentarmos convencer pessoas que têm casa, têm filhos, a mudar-se para a Ponta do Sol, começamos um bocadinho acima, por pessoas que estão a explorar o mundo e à procura de um bom sítio para viver.
O projeto foi escrito para Itália, mas eles nunca pegaram nele, e o Governo da Madeira, na minha opinião, de forma muito inteligente, investiu no projeto e teve algum sucesso.
ER: Que apoio tiveram do Governo da Madeira?
GH: Em setembro de 2020, vim à Madeira organizar uma conferência e vi que isto é lindo. Eu vinha de Bali e pensei “isto é melhor que Bali, como é que eu não sabia disto?”. E depois tens a beleza tropical, mas tens a infraestrutura europeia, com hospitais, centros de saúde, escolas, um pavilhão desportivo. Então, achei que isto tinha de ser feito aqui.
No dia seguinte, estive com o Secretário Regional da Economia, Rui Barreto, na abertura da conferência, e disse-lhe que a Madeira tinha um potencial incrível para este mercado, que as Canárias tinham acabado de investir meio milhão, em cinco anos, para atrair trabalhadores remotos, mas que a Madeira tinha muito mais potencial. O estranho é que ele acreditou no rapaz de calções e t-shirt e disse-me que tinha de ir conhecer o Miguel. Na altura não sabia quem era, mas era o presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, e ele disse logo que sim, perguntou quanto é que custa, e disse “vamos fazer”!
ER: Porquê a escolha da Ponta do Sol?
GH: Escolhemos a Ponta do Sol primeiro porque é lindo, está no melhor sítio da Madeira. Mas também porque tínhamos um potencial espaço de co-work, no centro cultural, e também porque conseguimos o apoio de várias pessoas locais, uma pessoa que trata dos apartamentos, o Hotel da Estalagem da Ponta do Sol, onde organizamos eventos todas as semanas, e criou-se aqui o ambiente certo para criar este projeto na Ponta do Sol e testar, que foi o que fizemos o ano passado durante seis meses, e teve imenso sucesso, felizmente.
Eu defendo que as vilas são os melhores sítios para viver, de longe. Porque tens já aquele comércio básico, cafés, restaurantes, mas ao mesmo tempo tens a calma e as relações pessoais, em que conheces toda a gente.
ER: Que condições oferecem a quem se muda para Ponta do Sol?
GH: A mais importante de todas é uma comunidade. Nós temos 5 a 15 eventos todos os dias, temos workshops de cripto, workshops de marketing digital, tudo aquilo que possam imaginar. Ao mesmo tempo temos atividade física, todos os fins de semana são passados fora. Nós fazemos esta gestão de atividades para ajudar a fixação de pessoais, e temos o espaço de co-work gratuito, de modo a funcionar como o epicentro da comunidade.
Oferecemos ajuda em tudo aquilo que é preciso. Uma nómada aleijou-se nas costas, nós levámo-la ao hospital e tratámos de tudo, outra foi parar ao hospital porque teve um acidente e nós tivemos lá com ela para ajudar na comunicação e garantir que não havia nenhuma informação perdida.
Aqui consegues ter relações pessoais e profissionais, e trabalhar para uma Google, por exemplo, ao mesmo tempo que estás numa ilha, no meio do Atlântico e na costa de África. Não é nada mau!
ER: Recebem pessoas de todo o mundo e de qualquer área?
GH: Sim, nós nem sequer selecionamos pessoas. É tudo muito democrático. É preciso fazer um registo no nosso site e vai dar à nossa comunidade online, depois é literalmente marcar o bilhete de avião, arranjar alojamento, e vir curtir e trabalhar para a Ponta do Sol.
Nós temos uma mentalidade “work hard, play hard”. Ninguém está aqui de férias, a maior parte das pessoas trabalha bastante. Mas, assim que fechamos o computador, vamos para a praia, vamos beber caipirinhas, vamos beber poncha, fazemos festas, fazemos ioga, fazemos crossfit. Não há um dia aborrecido nesta vila.
Normalmente, toda a gente começa por vir um mês e adia sempre a viagem de regresso. Temos uma grande taxa de sucesso e talvez um record mundial de número de voos adiados.
ER: Como foi a reação dos locais ao projeto?
GH: Foi muito, muito boa! Nós chegámos aqui no pico da pandemia, em que o turismo estava a morrer e os negócios estavam em risco de fechar portas. E, de repente, vêm cinco mil nómadas para a Madeira. Por um lado, foi um choque, mas por outro viemos salvar um bocadinho a economia aqui da Ponta do Sol.
Nós preparámos os locais, por exemplo, temos aqui um restaurante que é uma steak house que começou a criar refeições vegetarianas e veganas, porque 25% dos nómadas são vegetarianos ou veganos, e eles adaptaram-se muito bem. Portanto, não só fomos muito bem recebidos como conseguimos mudar bastante a economia local. Hoje em dia já não há época baixa em Ponta do Sol.
Em termos sociais foi também muito interessante. Nós chegámos no pico da pandemia e havia algum medo de que os nómadas trouxessem o COVID-19 para a Madeira. Mas, hoje em dia abraçaram completamente o facto de estarmos aqui e, quando se fala de novas vilas nómadas, vai toda a gente online defender que aqui é que é a verdadeira vila nómada, porque aqui é que foi a primeira.
ER: Estão a ponderar estender a iniciativa a outras partes do país?
GH: Eu trabalho com o Governo da Madeira, e sim o Governo está a abrir novas vilas, estamos a trabalhar cada vez mais com Porto Santo. Pessoalmente também já criei em Cabo Verde, na Ilha de São Vicente, e tenho um projeto Portugal inteiro, quero cria várias vilas nómadas.
Tenho muito pouco interesse, neste momento, em ajudar Lisboa a crescer, acho que tem demasiadas pessoas. Interessa-me mais pensar no país como um todo, para podermos ativar o Interior ou o Algarve no inverno.
Mas, se tudo correr bem, até ao final do ano teremos Portugal, Brasil e Cabo Verde.
ER: E uma parceria com o Governo Central?
GH: Já falámos nisso, está a ser falado, mas é tudo mais complicado. O Governo da Madeira por ser mais pequeno é muito mais empreendedor, tem uma visão muito mais holística do que quer fazer e consegue estar muito mais ligado à economia real. O Governo nacional começou a falar do nomadismo digital quase um ano depois da Madeira implementar este projeto.
Estou em contacto com o Governo nacional para tentar perceber como é que podemos fazer isto. Vai aparecer uma associação muito em breve, a Digital Nomad Association Portugal, que vou liderar para criar este mercado em Portugal. Estou a pensar em Sertã, Caminha, Vila Praia de Âncora, Algarve, o Alentejo que tem um potencial incrível. Portugal é um país muito diverso, que tem umas propriedades únicas, e a que toda a gente esta atenta. Portanto, a ideia é num futuro próximo trabalhar com o Governo Central e estruturar este produto para os nómadas digitas.
Mas não vejo o Governo nacional a criar comunidades, acho que isso vai estar a cargo de privados a trabalhar com o poder local. Já vemos bastantes municípios a contactarem-nos, mas nem todos têm capacidade financeira para sustentar este projeto, portanto, é aqui que o Governo nacional pode ajudar.
ER: Que medidas recomendaria ao Governo para ajudar a atrair nómadas digitais?
GH: Eu acho que temos de estruturar melhor os nossos vistos, temos de ter um visto de nómada digital que seja de três a seis meses, seguido de um visto para residência em trabalho remoto, que pode durar um ano ou ano e meio.
Acho que também temos de criar melhores condições para empresas. A Madeira tem condições incríveis, daí o sucesso que tivemos a atrair várias empresas. Há aqui um novo co-living, que é o Outsite, e que tem co-livings em Miami, São Francisco, Nova Iorque e Ponta do Sol, ou seja, começámos a atrair para uma pequena ilha de cinco mil pessoas negócios mundiais, o que prova que todo o mundo está a olhar para aquilo que estamos a construir. Mas o resto de Portugal ainda não é atrativo em termos fiscais.
Fotos: página pública do Facebook da Digital Nomads Madeira Islands
