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Vogal na Assembleia de Freguesia dos Olivais
Dissecando as eleições pela Navalha de Ockham
Assim, os portugueses mantiveram o “treinador” para a segunda parte, uma vez que o jogo até está, ao que sentem, empatado e até lhes dizem que podem vir a ganhar o jogo.
31 Jan 2022, 18:00

Ontem (31.01) os portugueses disseram de sua justiça. Com efeito, a queda da abstenção que se verificava durante o dia preconizava uma resposta robusta dos eleitores. Significaria isso uma mudança ou um reforço?

Com seis anos de governo em cima, muitos foram os que apostaram que seria de mudança. A realidade revelou-se oposta. O PS de António Costa venceu com maioria absoluta, secando BE e CDU, à sua esquerda. O PSD não conseguiu ser um polo agregador nem pelo centro nem pela direita. Daí, Chega e IL terem crescido acima das expectativas. O CDS, finalmente, teve de encarar a realidade. O Livre aproveitou bem a oportunidade mediática. E o PAN sobreviveu à última da hora. Como explicar isto, esta verdadeira “onda rosa” que ganhou, inclusive, em bastiões sociais-democratas, quando ainda há uma semana tanto se falou de empate técnico?

O leitor irá ser bombardeado pelas televisões e redes sociais com todo o tipo de teorias, conspirações e culpabilizações pelos comentadores do costume. Respire fundo e não se deixe enganar. Relembro o princípio da “Navalha de Ockham”, que postula, grosso modo, que quando existem múltiplas explicações plausíveis para um mesmo fenómeno, se deve optar pela mais simples, a mais elementar. E o motivo mais simples é este: existiu a perceção, errada ou não, de que o “jogo da pandemia” ainda estava a meio, não se arriscando mudar na política de apoios sociais, onde houve moratórias nos empréstimos à habitação, evitando a exposição ao verdadeiro impacto que a COVID teve na economia, idêntico ou pior que o dos tempos da “Troika”. Assim, os portugueses mantiveram o “treinador” para a segunda parte, uma vez que o jogo até está, ao que sentem, empatado e até lhes dizem que podem vir a ganhar o jogo. Em suma, mais do que ideologias ou faits-divers, os portugueses votaram a pensar na carteira porque, no imediato, é isso o que conta…

Relembro o princípio da “Navalha de Ockham”, que postula, grosso modo, que quando existem múltiplas explicações plausíveis para um mesmo fenómeno, se deve optar pela mais simples, a mais elementar

Numa análise global, não se tem referido que a direita cresceu no hemiciclo. Sim, é verdade. A direita passou de 84 para 96 deputados, quando ainda falta apurar a votação dos emigrantes. Mas o centro, definindo-o como o somatório de PS e PSD, teve um incremento de dez mandatos, passando para agora 196, confirmando o povo português como esmagadoramente moderado, em termos políticos.

Passo, agora, a dar umas pequenas achegas, por formação partidária:

PS (117)

Com Costa vencedor, Pedro Nuno Santos e o seu séquito terão de estar atentos ao agora ministeriável Medina e resfriar o seu entusiasmo quatro anos. Bem, talvez não seja preciso tantos, dado que Charles Michel termina o mandato como Presidente do Conselho Europeu em 2024. Nessa altura, com oito anos de governo em cima, quem sabe se António Costa não apanha um bilhete para Bruxelas…

PSD (76)

Rui Rio sofre derrota por ficar “a meio da ponte”. Como eternizou o ex-primeiro ministro Vasco Gonçalves “Ou se está com a revolução, ou se está com a reação”. Não ter sido claro em diabolizar o Chega ou acolhê-lo, sem complexos, como um partido que representa inegavelmente parte da sociedade portuguesa, numa solução alternativa ao PS, custou-lhe votos, ao centro no PS, à direita fundamentalmente no Chega, roubando deputados nos distritos menos urbanos, como Santarém, Faro, Aveiro, Leiria e Braga. Não se demitiu ainda porque, não havendo ainda pretendentes e acrescendo a perspetiva de mais quatro anos de travessia no deserto ao choque da desilusão, o PSD correria o risco de desagregação interna. Bitte warten sie einen Moment (Aguardem um momento por favor)…

Chega (12)

André Ventura é um dos grandes vencedores. Bem que podia agradecer a todos os adversários que o diabolizaram, sobretudo ao PS, que o nomeou implicitamente como oposição, ao sinalizá-lo com as famosas linhas vermelhas, numa demonstração efetiva da teoria das “duas bossas do camelo” postulada por outro Costa… Amaro da Costa. Os deputados conquistados fora de Lisboa e Porto demonstram a implantação no terreno, pelo que o maior desafio agora para o ego de Ventura é dividir o palco com outros. O teste á sua liderança começa agora…

IL (8)

Como já tinha escrito, a IL apostou de forma racional nos centros urbanos, tendo sido obviamente recompensada. Lisboa, Porto, Braga e Setúbal eram as escolhas óbvias para focar, faltando apenas Aveiro para “faturar” no top 5 dos distritos. Tendo a doutrina mais clara e estabelecida, o problema da divisão de palco que agora Cotrim de Figueiredo terá, será menos evidente. Mas não significa que não exista, pois existem correntes dentro da IL que não se identificam como direita, tal como a maioria das pessoas os identifica, podendo vir a ser fonte de atritos no médio prazo…

PCP (6)

Descendo a sua representação parlamentar para metade, foi o parceiro da “gerigonça” que aguentou melhor o embate, apesar de tudo. O PCP fica agora com mãos livres para ir para as ruas e dinamizar as suas estruturas, enferrujadas por seis anos de “ferrugem”. Jerónimo, líder há 18 anos, espera diligentemente que o Comité Central o alivie do fardo das suas funções. A noção do tempo na Soeiro Pereira Gomes não é igual à dos comuns mortais….

BE (5)

Passou de 19, para 5 deputados. Com o desaparecimento de três quartos do seu grupo parlamentar, as “manas” Mortágua representam agora 40%. Catarina Martins, seráfica como sempre, não tirou consequências imediatas do resultado. Será preciso uma audiência com Louçã para decidir a saída, ou cairá às mãos das irmãs, onde Mariana está na pole position para lhe suceder?

Livre (1)

Depois de ter sido deputado europeu pelo BE, de ter ficado no cone de aspiração, como se diz na Fórmula 1, onde Joacine Katar Moreira fez de Verstappen, ao se tornar deputada independente, Rui Tavares finalmente conseguiu. Aproveitou bem a oportunidade mediática que os debates lhe proporcionaram, vendendo-se como reserva moral da esquerda. Notável para quem também foi eleito recentemente vereador em Lisboa, nas listas de Medina…

PAN (1)

Inês Sousa Real conseguiu diminuir a pegada ecológica do grupo parlamentar do PAN. De 4 para 1, Sousa Real comportou-se qual eucalipto, secando tudo o que poderiam ser protagonistas alternativos, quando a sua imagem ficou bastante desgastada com o caso das estufas. O facto de não ser carne, nem ser peixe, no que respeita a coligar-se com PS ou PSD também não terá ajudado…

CDS (0)

Uma tragédia anunciada. Sem perceberem a erosão eleitoral que estava a ocorrer nos centros urbanos, Francisco Rodrigues dos Santos e sus muchachos empreenderam a mais suicida das estratégias políticas, ao apostarem no discurso dos princípios e do interior, que nunca lhe deram deputados. Ficou à vista porque fugiram do Congresso como o “diabo da cruz”. Não têm capacidade política para sequer eleger um deputado, não obstante o capital humano que dispõe um partido fundador da democracia. Não dar tudo em Lisboa e no Porto, perdendo-se a defender as touradas e em fazer vídeos de gosto duvidoso, está ao nível da desastrosa “Carga da Brigada Ligeira” na batalha de Balaclava dos britânicos, em 1854.

Percebe-se agora porque “Chicão” tinha na sua mente um esquadrão de cavalaria num dos momentos marcantes destas eleições…

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