14 Jan 2022, 12:00 “Alea jacta est” é a famosa frase que Júlio Cesar terá proferido quando, em desobediência ao Senado, cruzou o rio Rubicão com as suas legiões, perto da atual cidade de Cesena. A frase traduz-se como “os dados estão lançados”, não havendo hipótese de voltar atrás, desencadeou uma guerra civil que culminaria com a queda da República Romana e a instauração, no seu lugar, do Império Romano.
Esta foi a imagem que invadiu a minha mente após terminar de assistir ao debate de ontem entre António Costa e Rui Rio.
Como referi no artigo da semana passada, os debates subdividem-se em duas componentes, o duelo pessoal e por outro quem ganhou votos com o debate, sendo que se pode ter vencedores diferentes para cada uma delas.
Num debate em que finalmente houve tempo para debater a sério, passe o pleonasmo, tivemos António Costa mais primeiro-ministro, demonstrando um aparente conhecimento dos dossiers, bem documentado, com respostas na ponta da língua, devidamente bem formatadas e treinadas. Por seu lado, Rui Rio, mais intuitivo, menos organizado, mas mais genuíno e personalizado nas suas intervenções.
Se no duelo individual, no mano a mano, poderíamos dizer que António Costa teve algum ascendente, o preço para o fazer foi à custa de alguma sobranceria e, a determinada altura, deixou também transparecer alguma impertinência para com o seu oponente. E aqui Costa pode ter cometido o mesmo pecado que Medina “cometeu” com Moedas no debate para as autárquicas.
Rui Rio foi mais eficaz na comunicação com os telespetadores, com dados concretos, facilmente entendíveis
António Costa tem em cima o desgaste de seis anos de governação, que implica alguma saturação normal por parte do eleitorado. Rio preocupou-se várias vezes com o telespetador, repetindo em inúmeras ocasiões “as pessoas lá em casa percebem”. Por exemplo, na questão do provedor para a Justiça e na indignação, aparentemente autêntica, sobre a questão da TAP, recém nacionalizada, quer no que concerne às passagens aéreas serem mais baratas compradas em Espanha do que em Portugal, quer na comparação do IRC pago pela totalidade das empresas, versus o montante já entregue à nossa companhia de bandeira. Por esse motivo, diria que Rui Rio foi mais eficaz na comunicação com os telespetadores, com dados concretos, facilmente entendíveis.
Dado que apenas haverá mais um debate, versão “à molhada”, com todos os líderes, diria que os dados estão lançados para que haja uma mudança de ciclo e de poder
No entanto, tal como a vitória de Júlio Cesar não foi imediata, Rui Rio também não pode cometer gaffes e terá de manter o discurso com foco, agarrando o eleitorado flutuante sem perder o eleitorado fiel. Necessitará também que Costa vá tendo alguns percalços com a ação governativa, já que, segundo as sondagens, ainda disporá de alguma vantagem que tenderá a encurtar.
O pior pesadelo de Costa será o descobrir-se de algum caso como a da ex-presidente da junta de Arroios, na última semana da corrida autárquica. Tal como aconteceu a Medina, transbordando o copo da saturação dos portugueses
Mas no caso de Rio, conseguir essa vitória, no photo finish, o que surpreenderá muita gente, muitos comentadores televisivos e redes sociais que ficarão à beira de fazer hara-kiri, poderá obter um presente envenenado. Isto porque, a não ser que ocorra um tsunami laranja, Rui Rio precisará de parceiros à direita, dado que a contração à esquerda do PS não será significativa, uma vez que a expectável queda do Bloco de Esquerda e PCP será amortecida pelo crescimento do Livre, com Rui Tavares a ter prestações sólidas para o seu potencial eleitorado.
Cotrim de Figueiredo tem vindo a subir na sua prestação dos debates, podendo alcançar um score apreciável nos grandes círculos eleitorais urbanos, aportando assim um número interessante de deputados. A Iniciativa Liberal, tal como o PSD, foi beneficiária direta do vergonhoso debate entre Rodrigues dos Santos e André Ventura, ao nível duma taberna, mas que não ajudou a Direita, no seu todo, a credibilizar-se perante os portugueses, sendo que, arrisco dizer, tanto o CDS como o Chega perderam mais votos com aquele triste espetáculo.
Veremos, pois, o que acontece com a situação pandémica a condicionar, e de que maneira as ações de rua, estes debates, são/foram duma importância bem maior para afiliar e atrair eleitores, pelo que, doravante, valerá mais os erros que não se cometem do que propriamente “marcar golos” ao adversário.
Os dados estão, realmente, lançados!

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