summary_large_image
Comissão Nacional de Eleições - CNE
Autárquicas: as eleições tensas
"E as eleições autárquicas revestiam-se sempre de particular importância pois eram (e são) aquelas eleições onde se vota nas pessoas que se conhece."
20 Set 2021, 00:00

O meu pai só vestia fato e gravata em três ocasiões: baptizados; casamentos; e no dia das eleições. Era um dia de festa. Era um dia em que se praticava um acto nobre. Era um dia em que se exercia um direito que tinha custado tanto – a tanta gente – a conquistar.

E as eleições autárquicas revestiam-se sempre de particular importância pois eram (e são) aquelas eleições onde se vota nas pessoas que se conhece.

Nas eleições autárquicas vota-se no primo, no amigo, na mulher e/ou no marido, no mecânico da rua ou no advogado da praça. Nas eleições autárquicas podemos até votar em nós próprios. São eleições em que não votamos no rosto que vemos na televisão, mas votamos naqueles com que nos cruzamos no dia a dia.

Ora, tal circunstância faz com que tenhamos – regra geral – uma opinião baseada no nosso conhecimento pessoal e não na muitas vezes maquilhada impressão do candidato de dimensão nacional. Não conhecemos os candidatos nacionais. Conhecemos o que nos dão a conhecer. Conhecemos o que a televisão nos mostra e criamos a nossa convicção eleitoral sem nunca nos termos cruzado com aqueles que conduzem os nossos destinos.

A proximidade com os candidatos tem virtudes, mas também tem defeitos, pois sucede que termos 175091 candidatos aumenta a teia de conhecimento a tal ponto que a sua virtuosidade rapidamente pode soçobrar em indecorosidade.

É a inveja do vizinho que aparece no outdoor que aumenta. É o eleitor que se indigna com o fulano que lhe deve dinheiro e agora aparece vaidoso no jornal de campanha do partido em que ele habitualmente até vota. É o dirigente local de um qualquer partido que fica ressabiado por ter ficado de fora das listas e faz contravapor nas redes sociais. É o candidato do partido do poder local que perdeu o tacho e agora é um trânsfuga cabeça de lista a um qualquer Movimento de Cidadãos Independentes, patrocinado pelo empresário de construção civil, que perdeu em concurso as três obras que tinha em mente levar a cabo para a câmara municipal. Há de tudo. Há uma transposição de toda a vida social para um acto eleitoral.

E há também o poder autárquico que não hesita em utilizar os recursos públicos para fazer campanha institucional proibida, irando os seus pares, que bradando furiosos clamam pela imparcialidade e pela neutralidade.

Tudo é tenso. As relações crispam-se.

As caravanas concorrentes cruzam-se nas feiras e mercados e as bandeiras são contadas como quem conta mosquetes na madrugada da batalha. Os colegas de trabalho que até são candidatos em listas opostas, deixam-se de falar, e o chefe que é um “facho” mete um deles a trabalhar no vão da escada, porque não gostou de vê-lo numa qualquer rede social, envolto numa moldura do partido que ele detesta, quando actualizou a sua foto de perfil.

E como se não bastasse é a câmara municipal que imprime os votos e recolhe os votos antecipados. Pior, brada um candidato – é a junta que recolhe os resultados no final das eleições. Mas como pode isto ser, exclama outro, indignado, se o presidente da junta também é candidato contra nós!

Mas chega o dia e tudo corre bem. Apesar do clima tenso e agitado, os quase 70 mil membros de mesa, organizados em grupos de cinco, quais polícias eleitorais indicados pelas candidaturas, garantem um sistema de equilíbrios que faz com que Portugal tenha um dos mais sólidos e blindados sistemas eleitorais do Mundo.

No final do dia, muitos ficarão chateados com os resultados, mas nenhum os colocará em causa. E no final de contas, toda esta tensão em torno das eleições autárquicas empresta-lhe uma riqueza que as outras eleições não têm, conferindo-lhe a tal importância que justifica que nesse dia se vista fato e gravata.

 

O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

  Comentários
Mais Opinião