CATÓLICOS REZAM POR VÍTIMAS DE ABUSO NA IGREJA
Vigílias realizaram-se em frente ao Mosteiro dos Jerónimos e à Torre dos Clérigos
Redação EuroRegião com LUSA
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23 de Fevereiro 2023, 10:51
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Várias centenas de católicos estiveram hoje reunidos junto ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, numa vigília de oração a propósito dos abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa, pedindo “perdão, comunhão e compromisso”.

“Aqui o ponto essencial era um sentimento de urgência, no sentido de que a divulgação do relatório não nos deixou indiferentes e que devíamos mostrar isso em público”, disse aos jornalistas Joaquim Costa, um dos signatários da iniciativa, que decorreu também em outras zonas do país.

Destacando a emergência e a exigência de respostas, centenas de católicos, leigos e religiosos estiveram uma hora em silêncio e com uma vela acesa.

“Se as pessoas vêm aqui é porque sentiram o mesmo apelo de urgência. Não vieram atrás de nenhuma organização, nenhum slogan. Vieram atrás daquilo que sentem no seu coração. O que sentem todos. Desde logo uma grande vergonha e uma grande necessidade de a manifestar e de pedir perdão pelo que aconteceu”, indicou.

Para Joaquim Costa, o sentimento é de “repúdio”.

Já Paulo Câmara disse aos jornalistas que se tratou de um “gesto simples de oração”.

“Confiamos muito no poder da oração. É um gesto de misericórdia e um gesto de esperança coletivo, mas em silêncio, porque entendemos que nesta altura o silencia em oração diz bastante”, realçou.

O também subscritor da iniciativa sublinhou que o que une os católicos é “penas um gesto de dor pela dor dos outros e uma vontade de mudança”.

Na vigília também marcou presença o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, que disse que hora de oração marcou “um silêncio muito preenchido”.

“Vim expressar aquilo que este silêncio expressou. Certamente, ficaram tocados pelo silêncio que aqui aconteceu durante esta hora e este silêncio é muito preenchido, sobretudo, por duas realidades: Em primeiro lugar, pela solidariedade, pela comunhão, por todos aqueles que sofreram. (…) O segundo (…) é que para os crentes, quando as feridas são assim tão profundas, só se resolvem com Deus, que está acima das nossas capacidades e boas vontades”, salientou.

“Estes dois sentimentos foram aqueles que preencheram a generalidade dos presentes, porque foi um silêncio muito preenchido”, acrescentou.

Manuel Clemente realçou ainda que se tem assistido a mudanças na Igreja Católica em relação a tratamento de temas como os abusos sexuais.

“A partir dos anos de 1990 tivemos a graça de ter dois grandes papas. O papa Bento XVI e agora o Papa Francisco, que nos últimos 10 tem-nos alertado constantemente para este problema, quer na Igreja quer na sociedade em geral. Temos tomado uma série de medidas”, afirmou.

Também no local esteve o líder do partido Chega, André Ventura, que referiu que quis marcar presença como católico, rejeitando qualquer aproveitamento político.

“Nós não estamos a aproveitar-nos de nenhuma iniciativa. O Chega convidou quem quis vir como católico e não como partido político. Eu próprio vim como católico. Eu como cidadão posso fazer declarações também. Penso eu que ainda não é proibido na lei”, observou.

Segundo André Ventura, importante que os cidadãos se mobilizassem e também que as forças políticas mostrassem que estão preocupadas com o assunto.

“É um assunto pessoal, mas que ao mesmo tempo é um assunto de natureza pública e que nós enquanto responsáveis públicos devemos preocuparmo-nos”, apontou.

A vigília de oração serviu para várias pessoas, enquanto membros da Igreja Católica, manifestarem às vítimas de abusos sexuais e familiares um “pedido de perdão, pela passividade e omissão de vigilância”.

Cerca de 100 pessoas concentraram-se hoje diante da Torre dos Clérigos, no Porto, numa vigília contra os abusos sexuais na igreja, com Sofia Thenaisie, porta-voz do grupo, a assegurar que ninguém ficou indiferente ao relatório da comissão independente.

“Como cristãos não ficámos indiferentes ao que foi revelado no relatório sobre os abusos sexuais e quisemos manifestar por um lado, o nosso pedido de perdão às vítimas, porque nos sentimos parte de um todo, de uma igreja que é feita de leigos e de consagrados e, ao mesmo tempo, dar sinal à igreja de que não está sozinha neste caminho, que queremos um caminho novo, que não queremos que isto volte a acontecer, que não queremos a ocultação de situações, [mas] um caminho diferente”, disse.

A comissão independente liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht iniciou a recolha de testemunhos de vítimas em 11 de janeiro de 2022, tendo validado 512 denúncias das 564 recebidas, o que permitiu a extrapolação para a existência de um número mínimo de 4.815 vítimas nos últimos 72 anos.

Na vigília que durou uma hora e onde estiveram desde crianças a idosos e que terminou com um Pai Nosso, segundo a porta-voz, “estiveram vários padres” explicando que a ausência do Bispo do Porto ficou a dever-se ao facto de hoje ser Quarta-feira de Cinzas, e D. Manuel Linda, àquela hora, estar na Sé Catedral na “imposição de cinzas”.

Sobre o simbolismo de a vigília decorrer junto à Torre dos Clérigos, Sofia Thenaisie disse que foi por ser “a igreja central no Porto” e que gostavam que “fosse uma igreja que não pertencesse a uma só paróquia, uma igreja que congregasse todas as paróquias do Porto e também todos os carismas, porque dentro da igreja há várias ordens e sensibilidades e queriam que fosse um espaço que fosse isento”.

“Acredito que a igreja não ficou fragilizada [com as conclusões do relatório]. Acho que foi um ato de coragem fazer esta investigação. Realmente muitas coisas não se sabiam, algumas saber-se-iam, mas muitas delas não se sabiam”, refletiu a também signatária do evento que reuniu cerca de 50 assinaturas em torno do compromisso de “não deixar que o silêncio volte a imperar”, lia-se no documento distribuído no final da cerimónia.

Voltando à conclusão do relatório, considerou que “foi maior do que aquilo que se imaginaria, mas “ainda bem que foi feito” porque isso é que permite que se passem a “uma nova fase”.

“Não pode haver mais ocultação, mais silêncio sobre estas situações”, concluiu.

O Ministério Público anunciou hoje que abriu 15 inquéritos na sequência das 25 participações remetidas pela comissão independente que estudou os abusos sexuais na igreja católica, confirmou hoje a Procuradoria-Geral da República (PGR), que também recebeu quatro denúncias do Patriarcado de Lisboa.

Ainda segundo a PGR, o MP recebeu quatro denúncias da Comissão de Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis do Patriarcado de Lisboa, que deram origem a sete inquéritos.

A Conferência Episcopal Portuguesa vai tomar posição sobre o relatório, de quase 500 páginas, numa Assembleia Plenária agendada para 03 de março, em Fátima.

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