SALGUEIROS: EQUIPA FEMININA DESTACA-SE PELA SOLIDARIEDADE
O plantel feminino do Sport Comércio e Salgueiros ofereceu-se para receber as atletas afegãs acolhidas por Portugal. O clube quer ajudar as novas jogadoras dentro e fora do relvado.
Maria João Silva / Manuel Ribeiro
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6 de Outubro 2021, 17:00
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Casimira, como é conhecida dentro de campo, chega para mais um treino. São 21H45 em ponto e a jogadora, apesar de doente, apressa-se a falar com a equipa técnica do Sport Comércio e Salgueiros (SCS), que a informa sobre a chegada de novas atletas ao clube. 

No aquecimento, ouvem-se vários idiomas, mas dentro das quatro linhas o futebol e a paixão pela modalidade tornam-se na linguagem de toda a equipa. 

De acordo com o Instituto Português do Desporto e Juventude, em 2018, Portugal contava com 667 715 atletas federados. Desse número, apenas 203 189 (30%) são do género feminino. Os valores tornam-se ainda mais assimétricos no que diz respeito ao futebol, uma vez que existem 189 417 inscritos na Federação Portuguesa de Futebol (FPF), mas apenas 9 822 (5%) dos atletas são mulheres.  

Na modalidade, o fairplay desportivo é reconhecido através do cartão branco, mas no Salgueiros a solidariedade vai além do esférico e das quatro linhas de jogo. Em setembro deste ano, após o anúncio da chegada de jogadoras afegãs e respetivas famílias a Portugal, o plantel feminino do SCS demonstrou desde logo o seu interesse em receber as jogadoras, tendo solicitado a intervenção da direção do clube no processo de acolhimento das atletas que, até agora, permanecem em Lisboa a aguardar as suas transferências para habitações de Norte a Sul do país. 

Marisa Pires, treinadora da equipa feminina, revelou – em entrevista ao EuroRegião – ter ficado “muito contente” com a iniciativa das suas jogadoras até porque “era algo que estava a ser pouco falado”. 

“As jogadoras ficaram sensibilizadas e contactaram-me a sugerir a integração das atletas afegãs na nossa equipa. Falei logo com o nosso Presidente – Gil Almeida – que  estabeleceu o contacto com as entidades responsáveis para tentar ajudar”, destaca Marisa Pires. 

A treinadora afirma que a nova época vai ser cheia de desafios para este clube centenário da cidade do Porto. “É necessário formar um grupo que se afirme como grupo e equipa. Quero que elas se sintam bem a jogar porque, na verdade, é sempre um desafio juntar uma equipa feminina, principalmente quando há atletas que nunca jogaram futebol. O objetivo é formar atletas fortes capazes de se divertirem a praticar a modalidade”, destaca a treinadora, que encara a chegada das atletas afegãs como algo benéfico não só para o plantel, mas principalmente para o clube. 

Marisa Pires, Treinadora da Equipa Feminina. Foto: EuroRegião

Já Casimira, a centrocampista da equipa, vê a solidariedade como algo que não se aplica só dentro do relvado. “As atletas são sempre bem-vindas no nosso campo e na nossa equipa, mas se as novas jogadoras – atletas afegãs – precisarem de casa ou comida, nós estamos aqui para ajudar. É isso que o clube defende e é assim que temos que ser”, destaca.

A camisola 22 confessa que a chegada das atletas afegãs vai desafiar a comunicação entre as jogadoras, mas realça que o futebol se transforma, dentro e fora de campo, num idioma capaz de ultrapassar qualquer fronteira ou barreira linguística.

O Sport Comércio e Salgueiros foi fundado em 1911 e conta com 24 presenças na Primeira Divisão nacional e uma qualificação para a Taça UEFA, onde defrontou e venceu o Cannes, equipa onde atuava Zinédine Zidane, um dos ícones do desporto rei. O clube sempre foi muito forte em outras modalidades como o polo aquático ou o andebol.

Atualmente, o clube milita na Série D da terceira divisão nacional e está a reemergir de uma grave crise financeira que o levou à falência em 2004.

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