POLITÉCNICO DE LEIRIA PREPARA-SE PARA SERVIR SALSICHAS DE ALGAS
Mas tem boas razões para o fazer. O objetivo do projeto é reaproveitar os recursos marinhos da costa de Peniche através da criação de alimentos nutricionalmente ricos e sustentáveis.
Beatriz Abreu Ferreira / Manuel Ribeiro
Texto
4 de Maio 2022, 16:23
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Salsichas de algas e pescado, fiambre de pescado ou até hambúrgueres vegan. Estas são algumas das iguarias que o Instituto Politécnico de Leiria (IPL) tem andado a desenvolver. O objetivo é criar produtos alimentares que sejam, por um lado, nutricionalmente ricos, mas também sustentáveis.

O EuroRegião conversou com Filipa Gomes, uma das investigadoras do IPL envolvidas no projeto, para saber mais sobre esta iniciativa.

EuroRegião (ER): O que é o ProReMar?

Filipa Gomes (FG): O ProReMar é um projeto que visa valorizar os recursos marinhos numa perspetiva de economia circular, porque isto é um projeto local, e visando a sustentabilidade dos oceanos.

ER: Por recursos marinhos referem-se a algas?

FG: Sim, neste projeto. Nós trabalhamos com todos os recursos marinhos, mas neste projeto focamo-nos em peixe de baixo valor comercial, por uma questão de facilidade de ter o pescado, porque imagina nós queremos repetir a formulação e o pescador não apanhou, porque apanhou sardinha e a sardinha vale mais, então o outro vai borda fora. Um dos objetivos é evitar que mandem borda fora, se eles apanharam então que o aproveitem que nós damos-lhe outro tipo de valor. Por outro lado, algas marinhas, em que a nossa costa é riquíssima, e a que a nossa cultura já começa a ser um bocadinho mais aberta, mas não é totalmente ainda. De facto, nós somos muito ricos e temos de aproveitar os nossos recursos. Além disso, são nutricionalmente vantajosos face a outros produtos, não só animais, mas também face a vegetais terrestres.

ER: Qual é o processo de transformação destes recursos em produtos alimentares?

FG: Existem várias fases. A primeira fase é ver o que é que está no mercado. A segunda etapa, e das mais importantes, é colocar os ingredientes que nós achamos que têm potencial e fazer formulações teóricas. Portanto, nós temos uma folha de calcula na qual vamos estimando, tipo uma receita, se eu colocar X deste produto mais X daquele, eu vou ter X de proteína ou X de vitamina A. Depois, passamos então para a parte de laboratório, que é a mais chata. Porque nós podemos ter um valor teórico muito bom, mas depois não chegamos à consistência que vai agradar ao consumidor. Depois estamos a falar de peixe e de algas, que têm um sabor muito característico, e temos de jogar muito bem com isto tudo. Pode parecer fácil, mas na verdade não é. Quando achamos que o nosso produto pode ter alguma viabilidade, damos a provar a algumas pessoas para que nos ajudem. No fim, fazemos uma avaliação do consumidor, mais a sério, em que expomos o nosso produto e pedimos que nos indiquem se acham que terá aceitação ou não. Para cada um dos produtos temos mais de 80 inquéritos.

ER: Há quanto tempo estão a desenvolver este projeto e em que fase é que estão?

FG: Este projeto iniciou em setembro de 2020 e terminaria em setembro de 2021. Mas, com a pandemia, pedimos o adiamento do projeto. Estes produtos de que estive a falar, nós embalamos a vaco, esterilizamos, e depois temos um determinado tempo de vida. Mas, ainda com as algas, que têm um potencial antioxidante, estamos a tentar desenvolver algo que nos aumente este tempo de vida útil. Esta tarefa ainda está em construção, enquanto as outras podiam acabar já.

ER: Como surgiu a ideia?

FG: Nós de investigação vivemos de projetos, então como projeto local a sustentabilidade, a economia circular e valorizar produtos da nossa costa eram tudo chavões que nós tínhamos de usar. Então com isto pensámos no que era importante fazer e para que lado é que devíamos virar o consumidor. Como temos de educar o consumidor para uma alimentação mais sustentável, mas podemos tentar fazer isso com produtos processados, porque se eu estou a usar recursos que são pouco explorados, eu posso estar a ser sustentável. Além disso, ao consumir estes produtos estamos também a evitar consumir os produtos importados que também são maus para o ambiente. Falamos da economia local por isto mesmo, porque evitar o transporte também é ajudar o ambiente.

ER: Qual tem sido a reação aos produtos?

FG: Depende do produto. Há produtos, principalmente a salchicha e o fiambre que, de um modo geral, gostam. Quando nós falamos do hambúrguer vegan, e eu acho que é porque já existem outros produtos no mercado e o fabrico artesanal, já existe um “gosto muito” e um “não gosto nada”. Ainda assim, temos uma avaliação positiva acima dos 70%, de pessoas que comprariam. Penso que este resultado também se deve ao facto de ser um produto para uma população que pode só comer produtos que não são de origem animal, e que também podem ter um tipo de paladar diferente.

ER: Quando vamos poder encontra-los nas prateleiras dos supermercados?

FG: Não temos previsões, porque isto é um processo muito grande. Mas confesso-lhe, que agora quando fui abrir o email para falar consigo, que tenho pelo menos quatro pedidos diretos para conversarmos e um deles é de uma empresa bastante conhecida. Eu fiquei extraordinariamente feliz, mas isto agora vamos ter de discutir em equipa, e falar com eles.

ER: Receberam apoio de fundos comunitários, no âmbito do Mar2020. Qual foi a importância?

FG: Sim, através do Galpesca que foi uma candidatura que fizemos a nível local. A importância foi toda porque, sem eles, não tínhamos orçamento para avançar sequer com as formulações. Em investigação nós vivemos de fundos. É muito importante financiarem-nos, e é importante nós mostrarmos a visibilidade dos nossos projetos para podermos ganhar mais projetos. Isto é um ciclo.

ER: Equacionam uma nova candidatura para alastrar o projeto a outras zonas da nossa costa?

FG: Quem sabes, haja oportunidades de financiamento que nós concorremos. Isto é um mundo, podemos fazer isto noutros concelhos e noutras perspetivas. Nós quando desenhámos o projeto foi para Peniche e pensámos nos recursos de Peniche. Mas, em princípio, nos próximos anos será sempre à volta disto porque cada vez mais isto é importante.

ER: Em que fase estão? Qual é o próximo passo? E planos para o futuro?

FG: Neste momento é terminar a última tarefa, melhorar o estudo de aceitação do mercado, e fazer esta publicitação. E, claro, nós queremos que o nosso produto siga. Isto é muito importante para nós porque é o que nós dá visibilidade e alento. Para nós às vezes é uma tristeza fazermos produtos potenciais e que não saem.

ER: E o que falta ao ProReMar para sair?

FG: Primeiro nós gostávamos de ter uma empresa que faça o protótipo, porque é importante produzi-lo à escala piloto e à escala industrial. Portanto é ter uma empresa que faça isto e que o venda diretamente, ou que faça isto e venda para uma grande superfície comercial, por exemplo. Há aqui várias perspetivas e nós aguardamos ansiosamente que nos queiram.

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