O desenvolvimento do interior do país é um dos maiores desafios atuais para a economia portuguesa. Mas, quando as taxas de abandono populacional e de desertificação alertavam o resto do país, a pandemia e a prática do teletrabalho trouxeram uma oportunidade única para acelerar o desenvolvimento destas regiões.
Toni Barreiros e Inês Carmo, responsáveis pela incubadora fundanense A Praça, explicam que o desafio é a “mudança de mentalidade”. O principal objetivo é trazer novos projetos para a região, mas também fazer regressar os Fundanenses que estão empregados pelo mundo fora.
Os números falam por si. Desde 2013, passaram 153 empresas pela incubadora, foram criados 300 postos de trabalho, e já vivem cerca de 800 informáticos e programadores no Fundão. Mas a estratégia para o sucesso engloba várias áreas de ação.
Incentivos Fiscais
Um dos métodos mais eficazes é a criação de um pacote de incentivos fiscais para empresas, explica Toni Barreiros. No Fundão, criaram-se rendas de baixo custo (para habitação ou espaços de escritório), descontos nos impostos diretos das empresas e isenções de IMI. Mas, segundo o mesmo, a própria localização da cidade pode ser um fator favorável: “o quadro comunitário também ajuda. As empresas, deslocando-se para o Fundão, podem candidatar-se a incentivos que não estão disponíveis para os grandes centros urbanos porque são destinados ao desenvolvimento do interior.”
Infraestruturas e competências
Por outro lado, só é possível atrair empresas se forem criadas condições para que elas se fixem na cidade.
“Nós começámos por apostar na área do IT e tivemos de preparar espaços específicos para as necessidades desse tipo de empresas. Criámos espaços muito pormenorizados, nomeadamente, em termos de rede, qualidade de internet, qualidade de segurança de dados, segurança no próprio acesso aos edifícios e CCTV,” diz o responsável da incubadora.
“Criámos também um curso de formação avançada para dar resposta às necessidades das empresas. Por exemplo, a Altran é uma empresa francesa e, por isso, uma das suas necessidades era trabalhadores que falassem a língua francesa. Nós providenciámos cursos de francês para as pessoas contratadas, libertando a empresa desse fardo,” continua.
Mais do que espaços, o Fundão criou um ecossistema de empreendedorismo para a captação de investimento. Agora, existem na incubadora, 34 espaços de co-work, um Centro de Negócios, um curso de formação avançado, e a Academia de Código dedicada a programação (uma disciplina presente também no currículo das escolas de modo a colmatar a falta de profissionais nessa área).
Além da tecnologia, a cidade fez uma grande aposta na agrotech. “Lançámos o centro de agrotech do Fundão para os nossos produtores visitarem e aprenderem as novas aplicações com que estamos a trabalhar, e temos uma rede WiFi que qualquer agricultor pode utilizar para implementar a tecnologia e que era essencial para o projeto resultar,” revela Toni Barreiros.
Acompanhamento social e burocrático
No entanto, se atrair empresas para o interior já não é tarefa fácil, mais difícil ainda é fazer com que fiquem. Este problema é particularmente relevante em áreas competitivas como o IT, explica Inês Carmo, “os programadores movimentam-se muito devido à competição empresarial, e nós temos que procurar dar vantagens para que fiquem cá”, alerta.
Os migrantes, vindos de cidades de várias partes do mundo, necessitam de um acompanhamento após a chegada. Segundo Toni Barreiros, esse é o fator diferenciador. “Aquilo que nos diferencia é o acompanhamento que fazemos às empresas. Temos muitos projetos estrangeiros e as pessoas não podem chegar ao Fundão, vindo de realidades completamente diferentes, e ser abandonados num apartamento. Se for um indivíduo, acompanhamo-lo só a ele. Se for uma família, acompanhamos a família recomendando escolas, restaurantes, etc. Criámos um espaço, o Espaço Empresa, que é dedicado ao acompanhamento das empresas que nos procuram e a informar interessados. Chamamos-lhe a “porta da cidade para o empreendedorismo”.
“Tivemos de criar também um plano estratégico de apoio aos migrantes para os conseguirmos integrar, e temos uma oferta social adequada para a população que vive cá neste momento. Agora não somos só Fundanenses, já se contam 11 nacionalidades a habitar o Fundão,” completa Inês.
A burocracia também fica a cargo da incubadora para ajudar a libertar as empresas desse fardo: “Toda a burocracia é feita por nós, para que a empresa se foque no seu projeto e no seu trabalho. Isto é um processo com muitas regras, mas que nós tentamos que nunca cheguem às empresas e investidores para que estes não desanimem, e esse trabalho fica todo para o nosso lado,” conta Toni.
Oportunidades do teletrabalho
Em tempos de pré-pandemia, o teletrabalho era ainda raro, mas, em dois anos, tornou-se uma prática comum e, em muitos casos, vantajosa. No Fundão, há uma aposta forte na incubação virtual, ou seja, em acompanhar projetos sediados no município, mas em que as pessoas não estão fisicamente lá. Atualmente, existem 40 empresas com este modelo, traduzindo-se em 70 postos de trabalho.
Toni garante que têm muitas pessoas que vieram de grandes centros urbanos porque “ouviram falar do Fundão e das condições que fornecemos, então estão a trabalhar em teletrabalho a partir daqui. Mesmo em termos de qualidade de vida, o Fundão consegue oferecer algo que as grandes cidades não conseguem”, conclui o responsável da incubadora fundanense.
