QUINTA DO FERRO MANTÉM ESPERANÇA NA REABILITAÇÃO
Nesta zona de Lisboa, as casas são vendidas “acima de seis mil euros por metro quadrado”, mas há cidadãos a viver em carrinhas abandonadas ou até “numa casota de cão”.
Beatriz Abreu Ferreira / Manuel Ribeiro
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2 de Março 2022, 19:30
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Em pleno coração de Lisboa, entre a Graça e Santa Apolónia, e a apenas alguns metros do Panteão Nacional, o contraste entre a riqueza do turismo e a miséria de quem tem ficado esquecido é gritante. Os moradores da Quinta do Ferro lutam pela reabilitação do bairro há vários anos, e apesar de, até agora, apenas terem conseguido intimações por parte da Câmara, um recente encontro com Carlos Moedas veio renovar a esperança de transformar o bairro.

A reunião entre a Associação de Proprietários e Moradores – Amigos da Quinta do Ferro e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), aconteceu “curiosamente” a pedido do autarca, na passada quinta-feira, conta José Rosa, presidente da entidade, ao EuroRegião.

Na opinião do próprio, a atitude do chefe do novo Executivo “mostra que estão dispostos a dizimar todas as barreiras que têm surgido até aqui, e que têm sido criadas pelo índice de localização da Quinta do Ferro,” acredita. Nesta zona, “há casas a serem vendidas acima de seis mil euros por metro quadrado” e o valor dos imóveis tem sido o principal fator para transformar as tentativas de aprovação do projeto de reabilitação “numa autêntica guerra”, argumenta.

Toxicodependência, criminalidade e miséria

Enquanto isso, cerca de 500 pessoas vivem entre a rua Entre Muros do Mirante e as ruas A, B e C, as zonas mais carenciadas do bairro e, segundo o representante da associação, os dados são incertos “porque há muitos ocupantes”.

“Há problemas sociais, como um cidadão que dormia numa casota de cão, na rua Entre Muros do Mirante, ou como outro cidadão que dormia numa carrinha abandonada, também em condições deploráveis, a população envelhecida que é vítima de assaltos. Outro problema é o tráfico de droga junto à Escola Gil Vicente. As crianças são logo envenenadas desde muito cedo, vão ali consumir e fornecer, e isto tem de acabar,” queixa-se.

Ainda na passada quinta-feira, durante a visita ao bairro, o presidente da CML teve oportunidade de testemunhar a criminalidade na zona. “Íamos a passar na rua da Verónica e vimos a polícia de choque a levar umas pessoas que estavam a ocupar uma casa, que tinha acabado de ser inaugurada. Eles arrombaram a porta, levaram as coisas mais valiosas, e estavam lá a dormir. O proprietário queixou-se ao próprio Carlos Moedas: “Está a ver, não sabia que tinha acabado inquilinos tão rapidamente”,” descreve José Rosa.

“Intimidações” e “expropriações”

Mas, até agora a Câmara Municipal não tem sido grande ajuda, garante a associação. Os proprietários receberam intimidações, algumas emitidas há cerca de duas semanas, com multas superiores a 100 mil euros e até penas de prisão, “uma coisa incrível”, lamenta.

De acordo com o parecer da Câmara transmitido à associação, ainda durante o mandato do Executivo anterior, a coima segue o modelo aplicado para a realização de quaisquer obras, mas, na opinião do representante dos proprietários, trata-se de “uma interpretação premeditada que serve de desculpa para os ataques aos pequenos proprietários”.

“São expropriações, eles [a Câmara Municipal] ficam com as coisas [casas ou terrenos], e de certeza que pagam valores ridículos, e é se pagarem,” declara José Rosa, mas acrescenta “isso são práticas que felizmente desapareceram”.

Segundo relata ao EuroRegião, durante o encontro da semana passada, Carlos Moedas emitiu ordens para “parar imediatamente com todas as orientações vindas do anterior Executivo” e “disse uma coisa muito interessante: “não foi para isto que fui eleito”,” cita o representante dos Amigos da Quinta do Ferro.

“O presidente Carlos Moedas garantiu a uma das nossas coordenadoras: “se a senhora vai presa, eu também vou. Vou à sua frente até! Isto vai parar, não vão pagar nada destes disparates”, e isso tranquilizou-nos, saiu-nos logo um peso dos ombros,” conta.

O futuro pode ser “espetacular”

Para o futuro, têm um projeto de “reabilitação séria, profunda, seguindo a norma Bauhaus, um estilo de arquitetura que se baseia na racionalidade, sustentabilidade, na luz e no meio ambiente” que “poderá fazer do bairro um bairro espetacular” e recusam os projetos para condomínios privados ou grandes prédios, que consideram desadequados para a zona histórica.

“Não queremos ali mamarrachos, não queremos ali nada que tenha mais do que dois ou três pisos. Queremos luz, queremos natureza, queremos um espaço intergeracional, um largo, um parque adaptado a crianças com dificuldades motoras e uma escadaria jardinada até à escola Gil Vicente, tendo por baixo um parque de estacionamento subterrâneo. Esta é a base do projeto pelo qual nos vamos sempre debater,” promete José Rosa.

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