Leiria tem vindo a apostar na cultura e na ligação com os seus habitantes que agora, mais do que nunca, têm um papel ativo no setor. O EuroRegião falou com Paulo Lameiro, coordenador do grupo executivo da Rede Cultura 2027, que afirma que a proposta de Leiria é uma candidatura onde “os embaixadores somos todos nós”.
EuroRegião: Leiria é uma cidade com história e, nos últimos anos, tem havido uma aposta forte na cultura, nomeadamente através da iniciativa Rede Cultura. Contudo, gostaria de lhe perguntar o que fez com que Leiria ganhasse força para se candidatar a Capital Europeia da Cultura 2027?
Paulo Lameiro (PL): A candidatura parte de Leiria, mas o concelho é só a parte de um todo muito maior chamado, Rede Cultura 2027 que, convoca 25 outros concelhos (quase 10% dos concelhos de Portugal Continental, totalizando mais de 805 mil habitantes e quase 6.000 km2 de extensão), dois politécnicos, duas dioceses e uma associação empresarial como parte inteira deste território vasto. Mais do que apenas uma candidatura a Capital Europeia da Cultura, somos uma efetiva Rede cultural que vai de Sobral do Monte Agraço, às portas de Lisboa, até Castanheira de Pêra, na fronteira com Coimbra, unindo ainda o litoral popular da Nazaré à história aristocrata do Cadaval, geminando as Torres Novas com as Vedras; e envolvendo 3 Comunidades Intermunicipais, 3 Lugares Património Mundial, 3 Cidades Criativas, 3 Cidades de Aprendizagem e 2 Cátedras da UNESCO.
A Rede Cultura 2027 tem ao seu serviço, já com anos de trabalho, um Conselho Geral com todos os Municípios que integram a Rede e que é, naturalmente, presidido pelo Presidente do Município de Leiria. Conta com um Conselho Estratégico presidido pelo principal responsável da Capital Europeia da Cultura, Guimarães 2012 – o Professor João Bonifácio Serra -, e um Grupo Executivo que revela, mobiliza e leva ao terreno a cultura que existe, que se cria e que se vive em todo o território e, agora, um grupo de personalidades apenas concentrado na redação da candidatura a partir do trabalho de rede já feito e que, em paralelo à candidatura e mesmo para além dela, continuará a ser feito no âmbito da Rede Cultura 2027.
Percebemos que tínhamos a vontade e a força de avançar com a candidatura por sermos uma rede de 26 municípios que se encontram através da cultura para se traduzir e transformar em intérpretes efetivos da cultura europeia, desde agora e até 2027, contando esse caminho depois, aí já de forma permanente. A candidatura não surgiu por acaso, responde antes a uma necessidade e uma vontade de um território vasto e diverso de 26 municípios de construírem rede, coserem território e fazerem “cidade” através daquilo que nunca tinha sido pensado em conjunto: a cultura como casa comum e a procura da ideia de Europa como destino.
Sabemos que a Rede Cultura Leiria 2027 recebe embaixadores para a iniciativa e para a sua candidatura a Capital Europeia da Cultura. Qual o papel desses embaixadores?
PL: Os embaixadores somos todos nós, os habitantes do território da Rede Cultura 2027. Em vez de selecionar para esta função personalidades já célebres, preferimos convocar agentes públicos e cidadãos culturais em geral para serem os nossos embaixadores, ou seja, para primeiro usarem a Rede Cultura 2027 e toda a sua extensão e intensidade, logo de seguida, para a levarem àqueles com quem se encontram, com quem gostam de viver Cultura, Europa e Cidade juntos.
Sabemos que Leiria é uma cidade muito próxima do seu povo. A população de Leiria é bastante ativa e demonstra com regularidade o orgulho na sua cidade. De que forma é que os habitantes da cidade fizeram/fazem parte desta candidatura?
PL: Todos os habitantes do território da Rede fazem parte desta candidatura. Estão patentes em todos os projetos e decisões. É uma candidatura construída peça a peça com as criações e os sonhos de um território heterogéneo, marcado por uma inesgotável capacidade de reinvenção da paisagem natural e humana. É uma candidatura participada, ativadora e com uma missão e contributo muitíssimo claros: “Curate the Commons / Curar o Comum”.
Desde o primeiro momento foram e são sempre as pessoas. O momento de transição entre o trabalho de Rede e a preparação da Candidatura foi o Congresso cujo encerramento presencial aconteceu em 23 e 24 de outubro de 2020, sobre o Futuro da Nossa Cidade, tema escolhido pelo nosso Conselho estratégico, presidido pelo Professor João Bonifácio Serra.
Desta vontade de pensarmos e conversarmos e do contexto pandémico surgiu a visão de anteciparmos o nosso momento de reflexão sobre quem somos e quem queremos e podemos ser, transformando o Congresso “O Futuro da Nossa Cidade”, presidido pelo Embaixador (e recente Ministro da Cultura) Luís Filipe Castro Mendes e que trouxe ao seu encerramento figuras como Tolentino de Mendonça, Alexandre Quintanilha, Kepa Korta ou François Mataraso.
Partimos da necessidade de reflexão sobre o que somos e o que queremos e podemos ser para estruturarmos uma abordagem ao território que o lê para o traduzir e transformar, abordagem essa em 6 eixos: Marcadores, Hospitalidade, Cidade, Criação, Pensamento e Gerações.
Lisboa foi Capital da Cultura em 1994, Porto em 2001 e Guimarães em 2012. De que forma é que o passado destas cidades influenciou a Candidatura de Leiria?
PL: Ser a 4ª Capital Europeia da Cultura nacional, a 1ª em processo competitivo, traz-nos a responsabilidade de, por um lado, alcançarmos o sucesso de cada uma destas cidades que nos antecederam e, por outro, acrescentar valor aos inegáveis sucessos conquistados.
Assim, se Lisboa foi fundamental na internacionalização da nossa capital, se Porto acrescentou infraestruturas de que hoje todos beneficiam, se Guimarães envolveu a comunidade num processo recordado desde então, Leiria pretende usar a cultura, a Europa e a cidade como instrumentos de cuidado, seleção e ambição do que faz o nosso encontro enquanto europeus. Ou seja, esta continuidade com valor acrescentado reflete-se totalmente no lema que adotámos: “Curar o Comum”.
Estão doze cidades a concurso da corrida a Capital Europeia da Cultura. Na vossa visão o que é que a candidatura de Leiria tem de diferente das restantes propostas?
PL: Leiria foi a primeira cidade a manifestar intenção de ser candidata, a 22 de maio de 2015, há já seis anos, portanto. Foi também a primeira cidade candidata a reiterar esta intenção nos primeiros dias logo após o primeiro grande confinamento pandémico. Quer esta lonjura na intenção quer esta urgência na sua reiteração devem-se justamente ao trabalho que, em 2015, importava realizar e, em 2020 e 2021, à necessidade de continuar esse trabalho, que é um trabalho de Rede. E esse trabalho surge por todo o lado na nossa candidatura.
Surge no conceito, surge no nome, surge na marca, surge na participação e no envolvimento. Surge na Rede Cultura 2027, que cumpre já este dia 22 de fevereiro, 2 anos de existência e cuja existência se planeia muito para lá de 2027, e que é uma Rede que une 26 concelhos numa mesma candidatura edificada em torno da ideia de fazer cidade e coser território através da Cultura e da procura e encontro com a Europa.
Uma rede que, sendo liderada por Leiria, é tanto de cada um dos 26 municípios que a integram, como é de Leiria e que, de uma ideia, construiu uma prática de identificar, relevar e ativar centenas de nós em rede, primeiro com os agentes culturais, empresariais, políticos e cívicos dos 26 concelhos da Rede Cultura 2027, depois com as suas populações.
Acolhemos de braços abertos quem nos queira vir a apoiar e perceba que esta Rede é o melhor lugar para Portugal ter uma Capital Europeia da Cultura bem-sucedida e extremamente significante e para a Europa encontrar em Leiria e na Rede Cultura 2027 um intérprete diferenciador e que acrescente valor à integração que, todos os anos, outorga a duas cidades europeias: o que é isto (o que pode e deve ser isto) de ser Capital Europeia da Cultura em 2027?
EuroRegião: Se Leiria for eleita Capital Europeia da Cultura 2027, o que é que os seus habitantes podem esperar para o futuro da cidade e da sua cultura?
Paulo Lameiro: A Candidatura de Leiria e da Rede Cultura 2027 a Capital Europeia da Cultura não é nem um pretexto nem uma hipnose.
Ou seja, não é apenas pela candidatura que estamos a fazer território e cidade em torno da Cultura e da Europa, como não acordaremos no dia a seguir à candidatura a perguntar-nos “e agora?”. Não, este é um caminho consciente, de continuidade e profundo, por isso é irreversível. Por isso é também aberto a todos os que, nomeadamente no Centro, no Oeste e no Médio Tejo percebam como é essencial irmos além de nós, buscando no outro força e sentido para, em cada um destes territórios, sermos mais Cultura e sermos mais Europa.
Faro, Évora, Oeiras, Aveiro, Coimbra, Braga, Viana do Castelo, Guarda, Funchal, Ponta Delgada, Vila Real também estão na corrida a Capital Europeia da Cultura 2027. Acompanhe as candidaturas das restantes cidades portuguesas no EuroRegião.
