O Movimento Cívico pela Estação Nova nasceu do exemplo positivo do Movimento Cívico pela Linha do Vouga. Mário Pereira, conimbricense a viver em São João da Madeira, é um dos membros do movimento de cidadãos em defesa da linha férrea do distrito de Aveiro e, quando soube da notícia de que os planos para o Metrobus previam o encerramento da Estação Nova em 2023, decidiu criar, com mais quatro amigos, uma campanha pela preservação do funcionamento desta estação ferroviária.
Formado em março deste ano, o movimento começou por analisar o projeto da Câmara e desenvolver um manifesto. Depois, passaram à fase de divulgação da sua campanha, através das redes sociais, e procuraram o apoio dos partidos políticos. “No geral, temos muita gente solidária. A população, que utiliza o comboio, não quer que a estação feche. E entre os partidos, o Partido Comunista Português, que sempre defendeu a estação, foi o mais recetivo, mas não foi o único, também recebemos o apoio do Partido Democrático Republicano, da Iniciativa Liberal e do Livre”, explica Mário Pereira ao EuroRegião.
A Estação Nova de Coimbra é o ponto mais central da rede de comboios da região. Aqui, chegam os comboios urbanos que vão para a Figueira da Foz, e os regionais para Aveiro, Entroncamento e Guarda que “têm um papel de comboios de proximidade”, conta Luís Neto, outro membro fundador do Movimento.
“As pessoas utilizam a estação diariamente para ir para o trabalho, para a escola ou aceder a serviços das capitais de distrito. Encerrando-a, vai obrigar toda a gente que usa estes comboios suburbanos a fazer o transbordo em Coimbra B, em teoria, para o Metrobus. Aquilo que temos tentado demonstrar é que o Metrobus não tem condições para substituir o comboio, ainda que faça o mesmo trajeto, porque tem uma capacidade muito diferente,” continua.
Segundo as contas do Movimento Cívico, em hora de ponta, chegam à estação cerca de 600 passageiros, em três comboios suburbanos, e durante um período de 10 minutos. Na mesma altura, chega a Coimbra B um comboio intercidades. Concentrando todos estes serviços numa só estação, a mais afastada do centro, a maioria das pessoas terá de fazer o transbordo para a baixa através do metro. “Os autocarros do Metrobus terão 44 a 55 lugares sentados. Como é que se divide todos estes passageiros por estes autocarros? As pessoas vão ter de esperar por um segundo ou terceiro autocarro, ou seja, o transbordo em vez de demorar quatro minutos passa a demorar 12 ou mais. E, obviamente, o Metrobus vai sair lotado logo desde Coimbra B, por isso, nem sequer vai dar para servir as restantes paragens”, prossegue Luís Neto.
Além do problema de lotação, os passageiros dos comboios de longo curso desfrutam de uma regalia que os cidadãos temem ver perdida. “O transbordo do intercidades para a Estação Central está incluído no bilhete, caso o transbordo passe a ser feito através do Metrobus é muito difícil isso manter-se. Só se fizerem uma promoção especial, mas normalmente os bilhetes de metro não estão incluídos no bilhete da CP,” lamenta.
O Movimento propõe outra solução para a mobilidade do município. “A melhor solução para os transportes é escolher um traçado alternativo que permita o Metrobus ser implementado sem ser onde está a atual linha ferroviária. Fazendo isso, não só as pessoas chegam de comboio até à Baixa da cidade, que continua a ser o principal destino, como mesmo quem se desloca para os hospitais, para a zona do estádio, ou para o centro sul, tem um transbordo muito mais facilitado na Estação Central porque a abrangência dos autocarros urbanos de Coimbra é a maior de toda a rede. Do ponto de vista dos transportes, é muito melhor a solução que estamos a apresentar, e ainda ninguém nos demonstrou o contrário,” defende.
Na reunião de ontem (08/11) do Executivo autárquico, José Manuel Silva, presidente da Câmara, garantiu que “não haverá levantamento de carris, sem alternativa viável e utilizável para servir a população”, no entanto, considera que manter MetroBus e a ferrovia no mesmo espaço “não seria minimamente sustentável”.
Mas o Movimento Cívico tem um “número mágico” como argumento. “Esta é uma estação com 1,3 milhões de passageiros. Fora de Lisboa e do Porto, é a estação mais movimentada do país, e isto sem ter comboios de longo curso”, lembra Mário Pereira. “O principal interesse do edifício é como estação de comboios. E tirar-lhe essa função, tirar-lhe os 1,3 milhões de passageiros não vai ter tanto interesse para a cidade. Do nosso ponto de vista, qualquer uso que não preserve o funcionamento da estação de comboios não tem interesse,” sublinha o colega fundador do grupo.
Na mesma reunião do município, Ana Bastos, vereadora dos Transportes e Mobilidade, descreveu-se como uma “voz crítica da solução implementada”, mas acredita que ter os dois sistemas de transporte em funcionamento simultâneo “seria um suicídio do ponto de vista económico”. A razão, disse, deve-se à falta de tempo: “temos de garantir que a empreitada é executada a tempo de irmos buscar os fundos europeus. Não há tempo para reponderarmos”.
Contudo, a explicação não satisfaz o Movimento de cidadãos para quem a falta de tempo é “uma falácia”. “O próprio Executivo pensa em rever o projeto para estender o Metrobus até ao polo 1 da Universidade, e aí não há problema em rever o projeto, mas para não encerrar a estação já não há tempo por causa dos fundos. É tarde no que toca à estação, mas não para a extensão até ao polo da Universidade?” questiona Mário Pereira.
“Quanto ao acesso aos fundos, achamos que dificilmente um projeto destes, para servir a mobilidade da cidade, não terá acesso a fundos europeus. Até porque só estamos a falar de um desvio de traçado, não é nenhuma alteração substancial. Quanto ao atraso das obras, o mais importante é a população da Linha da Lousã que está desde 2010 sem serviço de comboios, mas a empreitada até ao Alto de São João já está a ser feita, depois será até à portagem e, seguidamente, será a empreitada da portagem até Coimbra B, por isso, essas pessoas vão chegar até ao centro de Coimbra na mesma,” declara Luís Neto.
Para os dois conimbricenses, tempo não falta. Uma vez que o encerramento da Estação Central de Coimbra está dependente da conclusão das obras de extensão de Coimbra B, que deverá demorar mais dois anos. “Isso dá tempo suficiente para se estudar outras alternativas, candidatar a fundos se necessário, e tomar as diligências necessárias para se fazer um novo traçado”, afirma.
Entre as diligências referidas por Luís está a “demolição de um ou dois edifícios” para a construção do novo percurso do metro, mas, assegura, “as demolições já estavam previstas no plano de reabilitação da cidade”.
Também a proposta de transformação da Estação Nova num espaço turístico ou cultural, não satisfaz as reivindicações dos cidadãos. “Procurar outra função para a estação é fugir à questão. Estão a assumir que temos razão. Qualquer uso que se queira dar àquele espaço pode ser feito noutro sítio qualquer, incluindo o teatro Sousa Bastos, abandonado há anos, em ruínas, no centro da cidade, e muito simbólico, que está à espera de receber uma função cultural.”, recorda Luís Neto.
“É obvio que o comboio tem um efeito barreira, causado pela linha, no centro da cidade. Mas noutros sítios da Europa o que se faz é mitigar esta desvantagem, não é simplesmente deitar fora o bebé com a água do banho. Nós achamos que ou falta engenho ou falta vontade,” acrescenta.
“Seja como for, o encerramento já foi anunciado várias vezes, até estava previsto ser em 2020”, refere Mário Pereira. Entretanto, enquanto os comboios pararem no coração da cidade de Coimbra, este movimento civil, que já pediu para reunir com o novo Executivo, promete preservar a esperança da conservação da estação.
O EuroRegião contactou a vereadora Ana Bastos, mas não obteve resposta até ao momento da publicação deste artigo.
