Passam poucos minutos das oito da manhã quando o “Vouguinha” chega à estação ferroviária de Aveiro. De dentro saem dezenas de pessoas, a maioria com fardas de trabalho. Nesta que é a estação terminal, para quem chega, e o começo da viagem para quem parte – é o nosso caso.
Às 8h35 o comboio arranca, pontual, com destino à centenária linha do Vouga. A carruagem vai cheia de jovens carregados com mochilas e cadernos. Os graffitis nas janelas tapam-nos a vista, mas como a porta da nossa carruagem vai aberta, só se fecha (ainda que não completamente) quando forçada pelos funcionários da CP, conseguimos contemplar a paisagem rural dos arredores de Aveiro.
Os apeadeiros são poucas vezes mais do que uma paragem de autocarro com um nome pintado. As passagens de nível têm, na maioria das vezes, cancela automática, mas também há várias a funcionar com guarda e, algumas, que não têm nem uma coisa nem outra, o comboio trava a fundo e vai apitando para avisar os carros que estejam por perto de que vai passar.
O caminho não é longo, mas faz-se lentamente. Chegamos a Águeda cerca de 40 minutos depois e a carruagem fica imediatamente vazia. Nuno Trindade, é um dos revisores da CP que costuma fazer diariamente este troço, conta-nos que “a esta hora o comboio é muito movimentado, principalmente entre Aveiro e Águeda. Há um fluxo muito grande de passageiros. Para Águeda vão mais pessoas para estudar, e para Aveiro vão mais para trabalhar, mas são ambos trajetos muito procurados.”
A Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Águeda, que pertence à Universidade de Aveiro, mas tem morada no município vizinho, é a principal responsável pela hora de ponta no trajeto do “Vouguinha”. Sem o comboio, restavam poucas alternativas a estes passageiros. “A estrada entre Aveiro e Águeda é muito movimentada e daí tanta gente optar pelo comboio, porque de carro ou de autocarro apanham muito trânsito e demoram muito tempo”, explica o revisor.
Para Mário Pereira, do Movimento Cívico pela Linha do Vouga, entre as duas cidades “não há sequer uma estrada em condições” e para chegar às aldeias a linha férrea também é essencial, uma vez que, em muitos casos “estão facilmente acessíveis pelo comboio, mas por estradas não”, essas “ainda são em terra batida”, lamenta.
O Movimento de cidadãos pela preservação da linha nasceu em 2011 quando ameaçaram acabar com o “Vouguinha”. Apesar da população ter conseguido salvar o comboio histórico, o troço entre Sernada do Vouga e Oliveira de Azeméis foi encerrado. Por essa razão, o nosso caminho, e o de muitos residentes termina na última paragem do troço Sul: Sernada do Vouga. A estação não tem bilheteira ou sala de espera, mas acolhe um cafezinho agradável, que até tem vários clientes para almoço, mas, curiosamente, ninguém vai apanhar o comboio.
É a partir de Sernada do Vouga que a linha férrea é considerada insegura para o “Vouguinha” prosseguir caminho. Quem precisar de seguir para norte, a única solução é o serviço de táxi fornecido pela CP, duas vezes por dia. “Apesar de haver pouca gente, se calhar até é só uma pessoa por dia, o táxi vai na mesma e pára em todas as estações”, garante Nuno Trindade.
“O outro lado (Oliveira de Azeméis- Espinho) também é muito movimentado, principalmente no verão. De inverno também tem muita gente, mas de verão é fantástico. À segunda-feira Espinho tem feira, então isso junta-se com as idas à praia e vai mesmo cheio”, afirma o revisor, e Mário Pereira corrobora “muitas vezes só há lugar de pé”.
Está previsto um investimento de 34 milhões de euros, com um desenvolvimento faseado, até 2025, para renovação da superestrutura de via, com substituição integral de carril, travessas e fixações, balastragem de via e ataque mecânico pesado, bem como a automatização de passagens de nível.
Segundo a Infraestruturas de Portugal (IP), as obras na Linha do Vouga já começaram e foi concluída a intervenção entre Águeda e Sernada do Vouga, mas Mário Pereira diz que “estão atrasadas” e que, até agora, “só pintaram alguns apeadeiros, passagens de nível, mas nada de significativo”.
Nuno Trindade já não acredita que o troço fechado volte a abrir. “Se eles tivessem intenção de abrir, já tinham aberto há muito tempo, isto já está assim há muito tempo”, reclama. Mas o Movimento Cívico pela Linha do Vouga tem razões para estar mais otimista. “Falámos com o Ministro das Infraestruturas pelas redes sociais e garantiu-nos que vai ser feito o investimento. Estamos convictos de que o plano será feito, mas ainda há dias a IP andou a remover agulhas em Albergaria, (uma parte do troço fechado), não se compreende”, afirma Mário Pereira.
No regresso a Aveiro, fizemos uma paragem em Macinhata do Vouga para visitar o museu da Linha do Vale do Vouga, como era antigamente conhecida. A linha centenária foi construída em 1907, e o troço Espinho-Oliveira de Azeméis foi inaugurado por D. Manuel II. Além do serviço habitual, a CP organiza também viagens no Comboio Histórico do Vouga, uma locomotiva do início do século XX, que viaja de Aveiro até ao museu de Macinhata, todos sábados, durante o período de férias, para partilhar a história da linha.
Em tempos, era possível viajar até Viseu, mas o percurso do “Vouguinha” foi ficando cada vez mais curto. Entre Sernada do Vouga e o Carvoeiro foi transformado em estrada e entre a Foz do Rio Mau e Paradela do Vouga fez-se uma ciclovia.
Contudo, “a linha tem bastante potencial”, assegura o membro do Movimento Cívico pela Linha do Vouga. Além da elevada procura do serviço nos trajetos Aveiro-Águeda e Espinho-Oliveira de Azeméis, pode vir a servir de transporte para trabalhadores fabris ou para ligar as aldeias e vilas à capital de distrito. “Há muitas fábricas coladas à linha, ou a cinco minutos, com horários melhores, e com alguma requalificação, o “Vouguinha” ia ter mais passageiros. Muita gente não vai (de comboio) por não ter horário, e a falta de estacionamento começa a ser um problema. Precisávamos de uma boa ligação a Aveiro, até porque é uma alternativa económica”, explica Pereira.
No Ano Europeu do Transporte Ferroviário, durante o qual a UE e o Governo se desdobram em esforços para promover a ferrovia, a luta para a sobrevivência deste comboio é feita pela população, habituada a contar com o centenário “Vouguinha” como uma das poucas alternativas ao automóvel. “Se a linha continua aberta é pela luta da população. Não a fecharam, mas estão a deixá-la morrer”, alerta o membro do movimento cívico.
